CANDOMBLE – UMA RELIGIAO PARA OS EXCLUIDOS

março 26, 2011 § Deixe um comentário

INSTITUTO DA DIVERSIDADE, 25-03-2011

CANDOMBLÉ – UMA RELIGIÃO PARA OS EXCLUÍDOS!

Frente à uma atmosfera religiosa bastante forte no Brasil, trago aqui a sucinta
reflexão acerca dos cultos dos orixás no Brasil, dos quais excluo em grande
parte a umbanda, pela dimensão kardecista-católica que compõe seu plano de
moralidade, mas nos quais incluo as formas do candomblé baiano, do xangô
pernambucano, batuque gaúcho, tambor-de-mina do Nordeste ocidental etc., têm
sido, pelo menos desde os anos 30, e ininterruptamente, verdadeiros redutos
homossexuais, de homossexuais de classe social inferior.

Com exceção de Ruth Landes, em seu escrito de 1940 (Landes, 1967), até bem
pouco tempo os pesquisadores que erigiram a literatura científica sobre o
candomblé sempre esconderam este fato, ou ao menos o relevaram como traço de
algum terreiro “culturalmente decadente”. Ora, o homossexualismo está presente
mesmo nas casas mais tradicionais do país, não viu quem não quis (sobre estudos
contemporâneos, ver bibliografia em Teixeira, 1987).

O homossexual, sobretudo o homem, sempre foi obrigado a publicizar a sua
intimidade como único meio de encontrar parceria sexual, e, ao publicizar sua
intimidade, obrigava-se a desempenhar um papel social que não pusesse em risco a
sua busca de parceiro, isto é, que não pusesse em risco o parceiro potencial, um
papel que o mostrava como o de fora, o diferente, o não incluído, mas que ainda
assim não chegava a oferecer qualquer risco de “contaminação” do parceiro, que
para efeito público não chegava nunca a mudar de papel sexual.

Sua diferença o obrigou a desenvolver padrões de conduta que o identificasse
facilmente: para ser homossexual era preciso mostrar-se homossexual. Pois
nenhuma instituição social no Brasil, afora o candomblé, jamais aceitou o
homossexual como uma categoria que não precisa necessariamente esconder-se,
anulando-o enquanto tal. Só com os movimentos gay de origem norte-americana, a
partir dos anos 60, é que se buscou quebrar a idéia de que o homossexual tinha
que “parecer” diferente, num jogo que valorizou a semelhança e que, talvez,
tenha dado suporte para a guetificação e “formação demográfica” dos hoje
denominados “grupos de risco” da AIDS.

Esta aceitação de um grupo tão problemático para outras instituições,
religiosas ou não, também demonstra a aceitação que o candomblé tem deste mundo,
mesmo quando, no extremo, trata-se do mundo da rua, do cais do porto, dos
meretrícios e portas de cadeia.

Grandíssima e exemplar é a capacidade do candomblé, dentre as demais religiões
de matrizes africanas, de agregar os santos aos pecadores, o maculado ao limpo,
o feio ao bonito… Se concordarmos que as maiores concentrações relativas de
homossexuais e bissexuais ocorrem nas grandes cidades, onde podem refugiar-se no
anonimato e na indiferença que os grandes centros oferecem (além de oferecerem
locais e instituições de publicitação, que na cidade grande podem funcionar como
espaços fechados, isto é, públicos porém privatizados), encontramos uma razão a
mais para o sucesso do candomblé em São Paulo — a possibilidade de fazer parte
de um grupo religioso, isto é, voltado para o exercício da fé, mas que ao mesmo
tempo é lúdico, reforçador da personalidade, capaz de aproveitar os talentos
estéticos individuais e, por que não?, um nada desprezível meio de mobilidade
social e acumulação de prestígio, coisas muito pouco ou nada acessíveis aos
homossexuais em nossa sociedade. Ainda mais quando se é pobre, pardo, migrante,
pouco escolarizado. O candomblé é assim, de fato, uma religião apetrechada para
oferecer estratégias de vida que as ciências sociais jamais imaginaram.

Esta mera relação entre sacerdócio e homossexualidade não é prerrogativa nem do
candomblé e nem de nossa civilização.

Mas, o que faz do candomblé uma religião tão singular, tão ímpar e exclusiva é
o fato de que todos os seus adeptos devem exercer necessariamente algum tipo de
cargo sacerdotal. E qualquer que seja o cargo sacerdotal ocupado, ninguém dispõe
da necessidade de esconder ou disfarçar suas preferências sexuais. Ao contrário,
pode até usar o cargo para legitimar a preferência, como se usa o orixá para
explicar a diferença.

Porém, se o candomblé libera o indivíduo, ele libera também o mundo. Ele não
tem uma mensagem para o mundo, não saberia o que fazer com ele se lhe fosse dado
transformá-lo, não é uma religião da palavra, nunca será salvacionista. É sem
dúvida uma religião para a metrópole, mas somente para uma parte dela, como é
destino das outras religiões hoje.

O candomblé pode ser a religião ou a magia daquele que já se fartou da
transcendência despedaçada pelo consumo da razão, da ciência e da tecnologia e
que se encontrou desacreditado do sentido de um mundo inteiramente desencantado
— e o candomblé será aí uma religião aética para uma sociedade pós-ética.

Também, pode ser ela a religião e a magia daquele que sequer chegou a
experimentar a superação das condições de vida calçadas por uma certa
sociabilidade do salve-se quem puder, onde o outro não conta e, quando conta,
conta ou como opressor ou como vítima potencial, como inimigo, como indesejável,
como o que torna demasiado pesado o fardo de viver num mundo que parece ser por
demais desordenado — e o candomblé poderá ser então uma religião aética para uma
sociedade pré-ética.

Por JÚLIO CÉSAR DOS SANTOS CARDIM

Sociólogo e especialista em Direitos Humanos e Mediação de Conflitos
(Salvador-Bahia)

[i]

http://www.institutoadediversidade.com.br/direitos-humanos/candomble-uma-religia
o-para-os-excluidos/

[O futuro da religião são os nichos; como em qualquer outro negócio hoje. Igreja
para gays, para excluídos, etc.]

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