[RN] JORNALISTA ATEU PRESO 4 DIAS POR FORÇAS DE KADHAFI

abril 2, 2011 § Deixe um comentário

AFP – GOOGLE, 01-04-2011

QUATRO DIAS EM MÃOS DAS FORÇAS DE KADHAFI

De Dave Clark (AFP) – Há 1 dia

TRÍPOLI, Líbia — Os primeiros disparos soaram como fracos estalos quando o caminhão do Exército líbio ainda estava a centenas de metros, mas, ao se aproximar de nós, o barulho aumentou até se tornar uma descarga insistente de estampidos ensurdecedores.

"Yala, yala!" (Acelera, acelera!), gritamos ao motorista do carro, enquanto nossos perseguidores faziam sinais com os faróis.

Vários disparos perfuraram a lataria de nosso veículo e paramos fora da estrada, na esperança de que uma rendição nos salvasse da morte.

Quando paramos, os tiros efetuados com armas automáticas arrebentaram dois pneus e deixaram o motor como uma peneira.

Saímos do automóvel com as mãos para o alto, gritando "Sahafi, sahafi!" (Jornalistas, jornalistas!). Acabávamos de nos tornar os últimos correspondentes estrangeiros a cair em poder do Exército de Muamar Kadhafi.

Era um sábado, 19 de março, e os ataques aéreos da Otan ainda não tinham começado. O avanço das forças de Kadhafi para o leste parecia impossível de ser contido em uma estrada que cruzava o deserto entre a frente de batalha em Ajdabiya e o porto petroleiro de Tobruk, nas mãos dos rebeldes.

Planejávamos passar o dia entrevistando refugiados, mas, em pouco tempo, o fotógrafo da AFP Roberto Schmidt, o fotógrafo da Getty Images Joe Raedle e eu estávamos em poder de um regime ainda poderoso e imprevisível.

Seríamos levados a Sirte, feudo de Kadhafi, e para as prisões secretas de Trípoli.

Ajoelhados na beira da estrada, presenciamos a chegada de funcionários da inteligência à paisana. Fomos separados e obrigados a subir em três caminhonetes 4×4.

Nunca havíamos ficado frente a frente com os soldados do regime, ofendidos por notícias da imprensa que os descreviam como mercenários sedentos de sangue.

Mas seu moral estava em alta, pois estavam mais bem armados e eram mais disciplinados que os voluntários rebeldes.

Quando milicianos civis pró-Kadhafi tentaram nos atacar a partir de postos de controle instalados na estrada para o oeste, nossos guardas nos protegeram. Além disso, dividiram comida e bebida conosco.

Mas nas imediações de Sirte o ambiente se tornou sombrio.

O presidente francês Nicolas Sarkozy advertia para uma ação "em horas". Sirte, bastião do regime, podia ser tomada como alvo.

A histeria aumentava. Não entendo muito de árabe, mas algumas frases eram inconfundíveis: "F-16! F-16!", gritou alguém referindo-se aos caça-bombardeiros americanos. Civis armados com os rostos desfigurados pela raiva metiam seus corpos dentro do carro para tentar nos agarrar.

As balas traçantes da artilharia anti-aérea serpenteavam no céu. Uma primeira explosão sacudiu a cidade. Uma explosão, um estrondo, um pequeno tremor e uma bola de fogo. Depois, sabíamos que navios de guerra americanos e britânicos haviam disparado mísseis de cruzeiro contra os sistemas de defesa aérea.

Eu tinha iniciado uma contagem regressiva mental até a hora estimada em que minha esposa começaria a se preocupar. Fiquei me perguntando por quanto tempo a AFP esperaria para avisá-la que não sabiam o que tinha acontecido comigo.

Éramos prisioneiros de um regime paranóico, isolado, cidadãos de "Estados inimigos", capturados no campo de batalha.

Disseram-nos que entrar na Líbia sem vistos nos colocava em uma "situação difícil".

Na primeira noite, fomos interrogados por um funcionário com um inglês impecável. Queria os nomes e números de telefone celular de nossos contatos rebeldes, mas meu telefone via satélite Thuraya tinha sido roubado e o carro, onde estava o meu caderno de anotações, tinha sido queimado.

Tinha com Roberto e Joe uma forte amizade, construída em momentos de humor, histórias de casa e jogos de futebol com os dedos, utilizando como bola a tampa de uma garrafa de água.

Depois que fomos deixados com agentes à paisana, nossa situação piorou dramaticamente.

Fomos bruscamente algemados com as mãos nas costas, algo muito doloroso, e vendaram nossos olhos. Colocaram-nos em uma caminhonete e as algemas de metal foram ajustadas, a ponto de cortarem nossos punhos.

Havia quatro dias que não tomávamos banho. O odor nauseabundo piorava à medida que o veículo ficava mais quente sob o sol do deserto. Nossos guardas nos pulverizavam com um perfume horrivelmente doce.

No momento em que escrevo isto, quase uma semana depois, ainda posso ver os hematomas e cortes em meu punho. Tenho a impressão de ter perdido a sensibilidade na parte superior de minha mão esquerda.

As algemas foram depois substituídas por cordas feitas de um material plástico ajustável, apenas menos desconfortáveis. Fomos colocados dentro da pequena parte traseira de uma caminhonete policial.

"Se está feliz e sabe disso, aplauda", cantou Roberto. Nenhum de nós podia sequer mexer as mãos.

Os sinais não eram bons. Calculamos que, em certo momento, deveríamos estar perto de Trípoli.

Finalmente, tiraram-nos da caminhonete. Estávamos completamente desorientados. Levaram-me por uma escada de cimento até uma cela e comecei a imaginar que me levavam para um penhasco frente ao mar.

Retiraram a venda dos meus olhos, embora não tenham me devolvido meus óculos.

Depois nos separaram, e esse era nosso maior medo. Primeiro me levaram para um interrogatório, novamente com os olhos vendados. Também levaram Joe. Roberto ficou sozinho na cela.

Durante uma hora e meia meu interrogador recorreu a insultos, ameaças e a um par de tapas suaves.

"Você é um bom homem, David", disse, dando um tapinha no meu ombro ao se retirar, confiante de que tinha material suficiente para redigir minha "confissão".

Permitiram-me comer um pouco de arroz gorduroso e, depois, um homem que falava francês com sotaque africano apalpou meu peito e fez piadas de conotação sexual para seus camaradas, invisíveis aos meus olhos.

Em seguida, um "policial ruim", mais jovem, irrompeu na sala para repetir as mesmas perguntas.

"Chegaram pela estrada do deserto? Como a encontraram?", disse. "Temos um mapa", respondi. "Aha! Quem deu esse mapa para vocês? O MI6?", perguntou, referindo-se ao serviço secreto de inteligência britânico. "A Michelin", respondi.

Os interrogadores pareciam não acreditar que realmente fôssemos espiões estrangeiros.

"Qual é sua religião?". "Venho de uma família cristã", respondi, por alguma estranha razão subitamente tímido ao negar meu ateísmo. "Uma família cristã, então é judeu!", respondeu.

Tentei mudar o rumo do interrogatório. "Não, não, sou cristão. Cristão protestante". Mas o policial ruim gritou "Judeu!" mais uma vez, e depois não ouvi mais sua voz.

Um homem retirou a venda dos meus olhos e me pediu que assinasse e deixasse minha impressão digital nas 24 páginas de uma "confissão" em árabe.

De volta à cela, encontrei Roberto extremamente preocupado. Joe se juntou a nós e, pela primeira vez, nós três começamos a nos sentir desmoralizados.

O antissemita também tinha interrogado Joe, dizendo: "Você é um espião. Enfrentará um tribunal militar e sairá daqui em um caixão. Estou encarregado disto e sou eu quem decide".

Não tinha ideia do que havíamos confessado, mas nos disseram que éramos alvo de uma investigação militar formal. Prisão ou execução eram prováveis.

Subitamente, três homens entraram na cela, nos vendaram e nos amontoaram no banco traseiro de uma Toyota.

Ninguém falou, mas imagino que meus colegas pensaram o mesmo que eu: "Uma viagem rápida ao deserto, um tiro na nuca, uma sepultura profunda".

Mas ordenaram que retirássemos as vendas dos olhos. O carro avançava por uma avenida bem iluminada do centro de Trípoli. "Não se preocupem, vão para o hotel", disse o homem que ocupava o banco do carona.

A menos de um quilômetro paramos no hotel cinco estrelas Rixos, base principal da imprensa estrangeira.

O porta-voz de Kadhafi, Mussa Ibrahim, educado em Londres, estava lá para nos dar as boas vindas e organizar as perguntas da imprensa sobre nossa suposta gratidão ao "Guia".

Disseram-nos que podíamos ficar e fazer reportagens de Trípoli ou deixar a Líbia em um ônibus no dia seguinte. Disse que tinha que pensar no assunto, mas em minha cabeça já estava a meio caminho da Tunísia.

Rostos amigáveis -colegas da AFP- emergiram do grupo de jornalistas que cobriam a nossa chegada. Finalmente consegui um telefones celular. Ao ligar para a minha família, para amigos e colegas fiquei sabendo que nossa libertação havia sido anunciada três horas antes.

[i]

http://www.google.com/hostednews/afp/article/ALeqM5iYnciwdBWtabyjn6GWiv4XYNw0mw?docId=CNG.0ecbee0fb1488b29b84a304167cc09b7.41

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