[RN] ZECA CAMARGO SOBRE UM LIVRO RELIGIOSO

outubro 27, 2011 § Deixe um comentário

G1, 24-10-2011

FALA ALAIN, QUE EU TE ESCUTO

Para quem ainda não o conhece, seu novo livro é uma oportunidade e tanto – especialmente pelo tema sobre o qual ele resolveu se debruçar dessa vez: religião. Quando encontrei o livro em uma estante sábado passado, levei um susto! Como eu não havia sido avisado disso? – perguntei-me com falsa indignação. E resposta eu já sabia: na correria dos últimos dias (algo que só vai se agravar até o final do ano, já sei), eu mal tive tempo de passar numa livraria. Elas estão cheias de novidades – e essa é, claro, uma das melhores. Tem até um título que parece ter sido feito sob encomenda para mim: “Religião para ateus” (Editora Intrínseca). Comprei-o imediatamente e, com exceção de um certo programa que eu acabei apresentando no domingo, o resto do meu tempo dediquei integralmente à sua leitura. Eu era uma presa fácil – concordo (ainda mais depois dessa confissão de idolatria que fiz aqui). Mas quem há de resistir a uma leitura que, logo de cara, na primeira página, propõe:

“A real questão não é se Deus existe ou não, mas para onde levar a discussão ao se concluir que ele evidentemente não existe. A premissa deste livro é que deve ser possível manter-se um ateu resoluto e, não obstante, esporadicamente considerar as religiões úteis, interessantes e reconfortantes”.

Fala de Botton! Fala que eu te escuto!

O autor é um ateu convicto – filho de pais judeus seculares que, como ele explica, “colocavam a crença religiosa num nível similar à crença do Papai Noel”. Resolvida essa apresentação ainda na introdução (sugestivamente chamada de “Sabedoria sem doutrina”), ele nos deixa à vontade para acompanhá-lo no seu pensamento sem compromissos com a fé. Assim, de Botton é só elogios para os princípios por trás das religiões (ele se concentra basicamente em três das maiores do mundo: Catolicismo, Judaísmo, Budismo), que sustentam os pilares daquilo que a gente costuma chamar de sociedade – ou pelo menos sustentavam. O problema que temos de encarar hoje é que (naturalmente) desistimos de acreditar em todo o aspecto sobrenatural das religiões – e com isso deixamos para trás também as boas coisas que nos ajudaram, através de séculos, a nos organizarmos como pessoas mais decentes. Para usar uma expressão surrada, mas ideal para explicar o que aconteceu: jogamos fora a água da bacia depois do banho, mas o bebê foi junto com ela.

Uma vez que você aceita essa premissa inicial, fica fácil viajar nas propostas mirabolantes do filósofo. Por exemplo: grandes banquetes chamados “ágapes” (sim, como no título do best seller do Padre Marcelo Rosi) eram a regra até o Concílio de Laodiceia, no ano de 364, “acabar com a bagunça” e institucionalizar a hóstia. Para que a alegria desses encontros gastro-religiosos seja restaurada, de Botton, sugere a criação de um novo tipo de restaurante – justamente os “Ágapes”, onde todos se misturariam e, com as pessoas mais diferentes possíveis, celebraríamos a beleza da comunidade.

Se essa ideia lhe parece muito radical, espere para ler como ele acha que as universidades devem ser reorganizadas sob a ótica das religiões. De Botton acha que a abordagem tradicional para o aprendizado é ineficiente. Alunos não assimilam os ensinamentos e as discussões que realmente deveria nos interessar – sobre como podemos ser pessoas melhores – são ignoradas nas salas de aula. Por mais improváveis que sejam as aplicações de suas ideias não tem como não se divertir quando ele escreve que seria importante que não apenas lêssemos, mas relêssemos tudo que consideramos fundamental para nossa formação:

“Possivelmente, há tanta sabedoria a ser encontrada nas histórias de Anton Tchekhov quanto nos evangelhos, mas as coleções das primeiras não estão encadernadas junto com calendários para lembrar o leitor de programar uma releitura regular de suas percepções. Despertaríamos graves acusações de excentricidade caso tentássemos construir liturgias a partir das obras de autores seculares. No máximo sublinhamos algumas das frases que mais admiramos e que, de vez em quando, poderemos tornar a ver em um momento desocupado à espera de um táxi”.

Daí ele parte para o questionamento na linha do “será que estamos lendo livros demais e absorvendo de menos o que eles dizem?” – que é não menos interessante. Ele segue: “Nós nos sentimos culpados por tudo o que ainda não lemos mas deixamos de notar que já lemos muito mais que Agostinho ou Dante, ignorando, desse modo, que o problema está, sem dúvida, na nossa maneira de assimilar, não na extensão de nosso consumo”. Não é uma boa provocação?

De Botton tem dezenas delas em todo o livro. Pode ser sobre arte (“O cristianismo reconhece a capacidade da melhor arte em dar forma à dor e, dessa maneira, atenuar o pior dos nosso sentimentos de paranoia e isolamento”). Sobre a ternura (“Se existe um problema com a abordagem do cristianismo é ter sido bem-sucedida demais”). Ou mesmo sobre arquitetura (“Dada a feiura em que se transformaram vastas porções do mundo moderno, poderíamos perguntar se de fato há importância na aparência das coisas ao redor”). Não há um parágrafo sequer em todo “Religião para ateus” que não seja incapaz de te instigar. Aliás, como em todos os seus livros… Mas eu diria que dessa vez, justamente por ele falar de religião, as provocações me parecem ainda mais tentadoras. E por falar em tentações…

[e]

http://g1.globo.com/platb/zecacamargo/2011/10/24/fala-alain-que-eu-te-escuto/

[Confuso esse Zeca Camargo, meio bobo.]

s0u4t3u via ateularia.posterous.com

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