O TERREMOTO JAPONES NAO RELIGIOSO

março 19, 2011 § Deixe um comentário

JC NET, 20-03-2011

DEPOIS DO TERREMOTO

Em toda tragédia provocada por abalos sísmicos os cronistas relembram o
terremoto de Lisboa, que provocou profundas reflexões nos intelectuais da época.
No dia 1º de novembro de 1775, às nove e trinta da manhã, as igrejas estavam
lotadas por causa do feriado religioso de Todos os Santos. A terra tremeu e os
tetos decorados com figuras divinas desabaram sobre os fiéis. Os sobreviventes
fugiram para as planícies do Rio Tejo e se surpreenderam com o recuo das águas
que deixou os navios expostos. Sobreveio então a segunda catástrofe, com um
gigantesco tsunami de ondas de 10 a 20 metros de altura. Mas haveria ainda uma
terceira parte da desgraça. O grande incêndio iniciado pelo fogo das casas e
pelas velas das igrejas iluminadas. Como não havia quem apagasse o incêndio,
Lisboa ardeu durante cinco dias. Morreram entre dez mil a trinta mil pessoas,
cerca de 50% da população; 80% das edificações ruíram.

Expoentes do iluminismo como Voltaire, Kant, Rousseau e Goethe escreveram sobre
o terremoto. Por que Deus teria sido tão cruel com um dos países mais religiosos
da Europa? Era a pergunta que todos faziam e que eles tentavam responder.
Leibiniz, metafísico, otimista, dizia que vivíamos “no melhor dos mundos”. Pior
do que qualquer terremoto teria sido Nero e Calígula. Rosseau achava que eram os
erros dos homens os responsáveis pela corrupção da harmonia da Criação. Em
vários ensaios Kant se apegava às ideais de Aristóteles sobre canais no interior
da Terra. Dizia que sob nossos pés há cavidades e galerias estendendo-se por
toda parte, contendo fogo brilhante que, com pequeno estímulo pode lançar-se a
agitar ou mesmo fender a terra. O sábio grego não estava muito longe da hoje
conhecida movimentação das chamadas placas tectônicas. O que eles queriam dizer,
em síntese, é que o raio que cai na cabeça de quem reza nada tem a ver com Deus.
Contemporâneo, Mahtma Ghandi (1869-1948) tinha uma explicação mais chã: “Deus
não tem religião”. Para não ser considerado ateu teria que acreditar nele mesmo.

A tragédia vivida há dias pelos japoneses, certamente foi a mais documentada da
história. Hoje qualquer pessoa pode registrar cenas com o telefone celular. Há
câmeras espiãs em todo cenário urbano. A tecnologia possibilitou a captura de
imagens ao vivo dos efeitos dos tremores, da invasão das águas, da destruição, e
o que se segue desde o vazamento de radiação das usinas atômicas, em Fukushima.
O que surpreende em todas as imagens mostradas pela televisão, altamente
dramáticas, é que não há uma única cena onde os flagelados demonstrem desespero.
Nenhum grito. Sobreviventes procuram ajudar outros a sobreviverem. Ninguém
reclama, protesta ou berra. As pessoas sequer tocam no que sobrou. Nada de
saques às joalherias e nem mesmo aos supermercados para conseguir água e comida.

A cultura japonesa está alicerçada no coletivismo. É muito melhor juntar as
forças para reconquistar o que foi perdido do que gastar energia em lamentações.
Os brasileiros estranhavam, no século passado, o costume das famílias japonesas
imigradas dormirem, pais e filhos, todos sob o mesmo alcochoado. Mal percebiam
que o coletivismo dos japoneses, que leva à cooperação, à disciplina e à
obediência hierárquica dentro da família nasce desse ato singelo de dormirem
aconchegados. Um esquenta o outro. O princípio do Iluminismo é parecido: os
seres humanos estão em condições de tornar este mundo melhor mediante
introspecção, livre exercício das capacidades humanas e engajamento
político-social. Kant dizia que nós, humanos, precisamos ter coragem de fazer
uso da própria razão e não sermos tutelados. Nem por Deus. “A fé começa quando
termina o pensamento”, arrematou Kierkegaard quase um século depois. Hiroxima e
Nagasaki foram totalmente destruídas por bombas atômicas. Mais de cem mil
morreram em cada cidade e outras 300 mil sofreram e ainda sofrem consequências
da radiação. Hoje são duas cidades-jardins. Os japoneses nunca condenaram nem a
Deus e nem aos norte-americanos pela crueldade despejada do céu. Em meio às
flores, monumentos e obras de arte evocativas, cuidaram de deixar algumas marcas
do holocausto para lembrar ao mundo a estupidez humana, para que ela não se
repita. Riobaldo (Guimarães Rosa – 1908-1967) retemperava: “O diabo é às brutas,
mas Deus é traiçoeiro”. No Juízo Final, Ele acerta as contas sem maiores
tragédias.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

[i]

http://www.jcnet.com.br/detalhe_opiniao.php?codigo=203625

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ENTRE A CRUZ E O TUBO DE ENSAIO

março 18, 2011 § Deixe um comentário

EDUCAÇÃO INTEGRAL, 11-03-2011

ENTRE A CRUZ E O TUBO DE ENSAIO

Divergências entre ciência e religião podem gerar polêmica em sala de aula e
confundir os alunos. Para educadores, saída é não impor uma única verdade

Em uma sala do 6.º ano (antiga 5.ª série), durante uma aula de biologia sobre a
criação do universo, a professora termina de explicar a teoria do Big Bang, que
diz que o universo foi criado a partir de uma grande explosão cósmica entre 10 e
20 bilhões de anos. Um aluno ergue a mão e pergunta: “Pro-fessora, mas quem fez
as galáxias e tudo o que existe não foi Deus?”. A cena é frequente nas escolas,
divide os professores de ciências e biologia e coloca os de religião em uma
saia-justa.

A coordenadora do curso de Ciências Biológicas da Universidade Tuiuti do Paraná
(UTP) e professora aposentada do ensino médio e fundamental, Rita de Cássia
Dallago, conta que ao longo dos seus 26 anos de carreira percebeu que a
discussão sobre a origem do universo e do homem, principalmente entre
criacionismo (teoria religiosa que presume que tudo foi criado por uma força
superior) e evolucionismo (teoria científica proposta por Charles Darwin que diz
que o homem surgiu a partir da evolução de outras espécies) ganhou novos rumos,
mas que ainda perturba os educadores. “Em geral, os professores tendem a impor o
que acreditam, mas o ideal seria deixar claro sempre que existem duas correntes
e não uma única verdade. O aluno tem o direito de escolher em qual prefere
crer.”

Na maioria dos casos, os professores de ciências e biologia defendem o
evolucionismo, porque faz parte da formação deles, e os de religião, o
criacionismo. Mas Rita diz que na última década o perfil mudou um pouco e alguns
que ensinam biologia também acreditam na segunda corrente. “Já vi muito
professor que explica a origem da vida sob a ótica da ciência e depois, no final
da aula, diz aos alunos para não esquecer que tudo isso foi obra de Deus.”

Com um tema controverso e professores divididos, a questão que se levanta é como
não confundir a cabeça dos alunos e muito menos desrespeitar suas crenças
religiosas. Para o coordenador de Teologia da Ponti­fícia Universidade Católica
do Paraná (PUCPR), Cesar Kuzma, o caminho ideal na hora de ensinar é não tratar
as duas correntes como algo isolado e independente, mas sim como complementares.
“A ciência explica a origem do universo e o surgimento da espécie humana, mas é
a religião que dá sentido a isso. A meu ver esta é a melhor forma de ensinar os
estudantes sem criar conflito.”

Já para o filósofo Carlos Ramalhete, o papel do professor de ciências não é
ensinar religião, mas deixar claro que as ciências podem mudar. “A ciência é
apenas a melhor explicação até agora para os elementos nos quais Deus não pode
estar. A ciência moderna, ao contrário da religião, não é e nem pode ser
dogmática.”

Mas algumas vezes o conflito é inevitável, principalmente porque a escola é um
espaço de convivência entre alunos de crenças diferentes. Para os educadores, é
importante que seja assim porque as crianças precisam crescer em um espaço
democrático. “É claro que em algum momento houve confusão, tem aluno que às
vezes não aceita o que é dado em sala e sai batendo porta, mas isso é a
minoria”, conta Rita.

Mais liberdade
Segundo a professora de ensino religioso e história Célia Regina Guernieri, do
Colégio Imaculada Conceição, os alunos menores, geralmente entre 10 e 12 anos,
tendem a querer saber a opinião pessoal do professor e levam muito em conta o
que ele pensa. Os mais velhos, a partir dos 13 anos, têm uma bagagem diferente e
conseguem perceber por si só que existem duas teorias distintas e que podem
escolher entre uma e outra. “Hoje os estudantes são muito mais livres e críticos
do que há 30 anos. Eles conseguem perceber que não há uma verdade absoluta.”

Para que uma única verdade não reine em sala de aula, o professor de Ciências
Biológicas da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) Reginaldo
Rodrigues conta que nas palestras que dá aos colegas da educação básica costuma
orientá-los a não impor nada nunca e nem negar a existência de Deus aos alunos,
por mais que ele não acredite. “É papel dele defender a ciência, mas sabemos que
cada aluno tem sua religiosidade e que é preciso que o professor saiba lidar com
isso.”

Na Escola Adventista, o diretor Laureci Bueno do Canto diz que não há imposição
dos conceitos, mas pais e professores sabem a posição da escola. “Nós
acreditamos na Bíblia e para nós o que está lá é a verdade. O professor não
precisa acreditar e defender isso como real. Mesmo que ele comente que é
criacionista, vai deixar em aberto aos alunos.”

[i]

http://educacaointegral.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=395:
entre-a-cruz-e-o-tubo-de-ensaio&catid=38:slideshow&Itemid=101

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