CANDOMBLE – UMA RELIGIAO PARA OS EXCLUIDOS

março 30, 2011 § Deixe um comentário

INSTITUTO DA DIVERSIDADE, 25-03-2011

CANDOMBLÉ – UMA RELIGIÃO PARA OS EXCLUÍDOS!

Frente à uma atmosfera religiosa bastante forte no Brasil, trago aqui a sucinta
reflexão acerca dos cultos dos orixás no Brasil, dos quais excluo em grande
parte a umbanda, pela dimensão kardecista-católica que compõe seu plano de
moralidade, mas nos quais incluo as formas do candomblé baiano, do xangô
pernambucano, batuque gaúcho, tambor-de-mina do Nordeste ocidental etc., têm
sido, pelo menos desde os anos 30, e ininterruptamente, verdadeiros redutos
homossexuais, de homossexuais de classe social inferior.

Com exceção de Ruth Landes, em seu escrito de 1940 (Landes, 1967), até bem
pouco tempo os pesquisadores que erigiram a literatura científica sobre o
candomblé sempre esconderam este fato, ou ao menos o relevaram como traço de
algum terreiro “culturalmente decadente”. Ora, o homossexualismo está presente
mesmo nas casas mais tradicionais do país, não viu quem não quis (sobre estudos
contemporâneos, ver bibliografia em Teixeira, 1987).

O homossexual, sobretudo o homem, sempre foi obrigado a publicizar a sua
intimidade como único meio de encontrar parceria sexual, e, ao publicizar sua
intimidade, obrigava-se a desempenhar um papel social que não pusesse em risco a
sua busca de parceiro, isto é, que não pusesse em risco o parceiro potencial, um
papel que o mostrava como o de fora, o diferente, o não incluído, mas que ainda
assim não chegava a oferecer qualquer risco de “contaminação” do parceiro, que
para efeito público não chegava nunca a mudar de papel sexual.

Sua diferença o obrigou a desenvolver padrões de conduta que o identificasse
facilmente: para ser homossexual era preciso mostrar-se homossexual. Pois
nenhuma instituição social no Brasil, afora o candomblé, jamais aceitou o
homossexual como uma categoria que não precisa necessariamente esconder-se,
anulando-o enquanto tal. Só com os movimentos gay de origem norte-americana, a
partir dos anos 60, é que se buscou quebrar a idéia de que o homossexual tinha
que “parecer” diferente, num jogo que valorizou a semelhança e que, talvez,
tenha dado suporte para a guetificação e “formação demográfica” dos hoje
denominados “grupos de risco” da AIDS.

Esta aceitação de um grupo tão problemático para outras instituições,
religiosas ou não, também demonstra a aceitação que o candomblé tem deste mundo,
mesmo quando, no extremo, trata-se do mundo da rua, do cais do porto, dos
meretrícios e portas de cadeia.

Grandíssima e exemplar é a capacidade do candomblé, dentre as demais religiões
de matrizes africanas, de agregar os santos aos pecadores, o maculado ao limpo,
o feio ao bonito… Se concordarmos que as maiores concentrações relativas de
homossexuais e bissexuais ocorrem nas grandes cidades, onde podem refugiar-se no
anonimato e na indiferença que os grandes centros oferecem (além de oferecerem
locais e instituições de publicitação, que na cidade grande podem funcionar como
espaços fechados, isto é, públicos porém privatizados), encontramos uma razão a
mais para o sucesso do candomblé em São Paulo — a possibilidade de fazer parte
de um grupo religioso, isto é, voltado para o exercício da fé, mas que ao mesmo
tempo é lúdico, reforçador da personalidade, capaz de aproveitar os talentos
estéticos individuais e, por que não?, um nada desprezível meio de mobilidade
social e acumulação de prestígio, coisas muito pouco ou nada acessíveis aos
homossexuais em nossa sociedade. Ainda mais quando se é pobre, pardo, migrante,
pouco escolarizado. O candomblé é assim, de fato, uma religião apetrechada para
oferecer estratégias de vida que as ciências sociais jamais imaginaram.

Esta mera relação entre sacerdócio e homossexualidade não é prerrogativa nem do
candomblé e nem de nossa civilização.

Mas, o que faz do candomblé uma religião tão singular, tão ímpar e exclusiva é
o fato de que todos os seus adeptos devem exercer necessariamente algum tipo de
cargo sacerdotal. E qualquer que seja o cargo sacerdotal ocupado, ninguém dispõe
da necessidade de esconder ou disfarçar suas preferências sexuais. Ao contrário,
pode até usar o cargo para legitimar a preferência, como se usa o orixá para
explicar a diferença.

Porém, se o candomblé libera o indivíduo, ele libera também o mundo. Ele não
tem uma mensagem para o mundo, não saberia o que fazer com ele se lhe fosse dado
transformá-lo, não é uma religião da palavra, nunca será salvacionista. É sem
dúvida uma religião para a metrópole, mas somente para uma parte dela, como é
destino das outras religiões hoje.

O candomblé pode ser a religião ou a magia daquele que já se fartou da
transcendência despedaçada pelo consumo da razão, da ciência e da tecnologia e
que se encontrou desacreditado do sentido de um mundo inteiramente desencantado
— e o candomblé será aí uma religião aética para uma sociedade pós-ética.

Também, pode ser ela a religião e a magia daquele que sequer chegou a
experimentar a superação das condições de vida calçadas por uma certa
sociabilidade do salve-se quem puder, onde o outro não conta e, quando conta,
conta ou como opressor ou como vítima potencial, como inimigo, como indesejável,
como o que torna demasiado pesado o fardo de viver num mundo que parece ser por
demais desordenado — e o candomblé poderá ser então uma religião aética para uma
sociedade pré-ética.

Por JÚLIO CÉSAR DOS SANTOS CARDIM

Sociólogo e especialista em Direitos Humanos e Mediação de Conflitos
(Salvador-Bahia)

[i]

http://www.institutoadediversidade.com.br/direitos-humanos/candomble-uma-religia
o-para-os-excluidos/

[O futuro da religião são os nichos; como em qualquer outro negócio hoje. Igreja
para gays, para excluídos, etc.]

CANDOMBLE – UMA RELIGIAO PARA OS EXCLUIDOS

março 26, 2011 § Deixe um comentário

INSTITUTO DA DIVERSIDADE, 25-03-2011

CANDOMBLÉ – UMA RELIGIÃO PARA OS EXCLUÍDOS!

Frente à uma atmosfera religiosa bastante forte no Brasil, trago aqui a sucinta
reflexão acerca dos cultos dos orixás no Brasil, dos quais excluo em grande
parte a umbanda, pela dimensão kardecista-católica que compõe seu plano de
moralidade, mas nos quais incluo as formas do candomblé baiano, do xangô
pernambucano, batuque gaúcho, tambor-de-mina do Nordeste ocidental etc., têm
sido, pelo menos desde os anos 30, e ininterruptamente, verdadeiros redutos
homossexuais, de homossexuais de classe social inferior.

Com exceção de Ruth Landes, em seu escrito de 1940 (Landes, 1967), até bem
pouco tempo os pesquisadores que erigiram a literatura científica sobre o
candomblé sempre esconderam este fato, ou ao menos o relevaram como traço de
algum terreiro “culturalmente decadente”. Ora, o homossexualismo está presente
mesmo nas casas mais tradicionais do país, não viu quem não quis (sobre estudos
contemporâneos, ver bibliografia em Teixeira, 1987).

O homossexual, sobretudo o homem, sempre foi obrigado a publicizar a sua
intimidade como único meio de encontrar parceria sexual, e, ao publicizar sua
intimidade, obrigava-se a desempenhar um papel social que não pusesse em risco a
sua busca de parceiro, isto é, que não pusesse em risco o parceiro potencial, um
papel que o mostrava como o de fora, o diferente, o não incluído, mas que ainda
assim não chegava a oferecer qualquer risco de “contaminação” do parceiro, que
para efeito público não chegava nunca a mudar de papel sexual.

Sua diferença o obrigou a desenvolver padrões de conduta que o identificasse
facilmente: para ser homossexual era preciso mostrar-se homossexual. Pois
nenhuma instituição social no Brasil, afora o candomblé, jamais aceitou o
homossexual como uma categoria que não precisa necessariamente esconder-se,
anulando-o enquanto tal. Só com os movimentos gay de origem norte-americana, a
partir dos anos 60, é que se buscou quebrar a idéia de que o homossexual tinha
que “parecer” diferente, num jogo que valorizou a semelhança e que, talvez,
tenha dado suporte para a guetificação e “formação demográfica” dos hoje
denominados “grupos de risco” da AIDS.

Esta aceitação de um grupo tão problemático para outras instituições,
religiosas ou não, também demonstra a aceitação que o candomblé tem deste mundo,
mesmo quando, no extremo, trata-se do mundo da rua, do cais do porto, dos
meretrícios e portas de cadeia.

Grandíssima e exemplar é a capacidade do candomblé, dentre as demais religiões
de matrizes africanas, de agregar os santos aos pecadores, o maculado ao limpo,
o feio ao bonito… Se concordarmos que as maiores concentrações relativas de
homossexuais e bissexuais ocorrem nas grandes cidades, onde podem refugiar-se no
anonimato e na indiferença que os grandes centros oferecem (além de oferecerem
locais e instituições de publicitação, que na cidade grande podem funcionar como
espaços fechados, isto é, públicos porém privatizados), encontramos uma razão a
mais para o sucesso do candomblé em São Paulo — a possibilidade de fazer parte
de um grupo religioso, isto é, voltado para o exercício da fé, mas que ao mesmo
tempo é lúdico, reforçador da personalidade, capaz de aproveitar os talentos
estéticos individuais e, por que não?, um nada desprezível meio de mobilidade
social e acumulação de prestígio, coisas muito pouco ou nada acessíveis aos
homossexuais em nossa sociedade. Ainda mais quando se é pobre, pardo, migrante,
pouco escolarizado. O candomblé é assim, de fato, uma religião apetrechada para
oferecer estratégias de vida que as ciências sociais jamais imaginaram.

Esta mera relação entre sacerdócio e homossexualidade não é prerrogativa nem do
candomblé e nem de nossa civilização.

Mas, o que faz do candomblé uma religião tão singular, tão ímpar e exclusiva é
o fato de que todos os seus adeptos devem exercer necessariamente algum tipo de
cargo sacerdotal. E qualquer que seja o cargo sacerdotal ocupado, ninguém dispõe
da necessidade de esconder ou disfarçar suas preferências sexuais. Ao contrário,
pode até usar o cargo para legitimar a preferência, como se usa o orixá para
explicar a diferença.

Porém, se o candomblé libera o indivíduo, ele libera também o mundo. Ele não
tem uma mensagem para o mundo, não saberia o que fazer com ele se lhe fosse dado
transformá-lo, não é uma religião da palavra, nunca será salvacionista. É sem
dúvida uma religião para a metrópole, mas somente para uma parte dela, como é
destino das outras religiões hoje.

O candomblé pode ser a religião ou a magia daquele que já se fartou da
transcendência despedaçada pelo consumo da razão, da ciência e da tecnologia e
que se encontrou desacreditado do sentido de um mundo inteiramente desencantado
— e o candomblé será aí uma religião aética para uma sociedade pós-ética.

Também, pode ser ela a religião e a magia daquele que sequer chegou a
experimentar a superação das condições de vida calçadas por uma certa
sociabilidade do salve-se quem puder, onde o outro não conta e, quando conta,
conta ou como opressor ou como vítima potencial, como inimigo, como indesejável,
como o que torna demasiado pesado o fardo de viver num mundo que parece ser por
demais desordenado — e o candomblé poderá ser então uma religião aética para uma
sociedade pré-ética.

Por JÚLIO CÉSAR DOS SANTOS CARDIM

Sociólogo e especialista em Direitos Humanos e Mediação de Conflitos
(Salvador-Bahia)

[i]

http://www.institutoadediversidade.com.br/direitos-humanos/candomble-uma-religia
o-para-os-excluidos/

[O futuro da religião são os nichos; como em qualquer outro negócio hoje. Igreja
para gays, para excluídos, etc.]

COMO FUNCIONA O COMERCIO DO ESOTERISMO EM SAO PAULO?

março 18, 2011 § Deixe um comentário

COMO SÃO AS CONSULTAS DE AMARRAÇÃO DO AMOR

Época São Paulo visitou locais onde pais e mães de santo oferecem o serviço
por Luiz Felipe Orlando
Anúncios de amarração do amor desafiam a Lei Cidade Limpa
Mesmo proibidos pela Lei Cidade Limpa, a publicidade afixada em postes ainda faz
parte do cenário de São Paulo. Um dos anúncios mais comuns é o de pais e mães de
santo que prometem trazer a pessoa amada de volta. Para conhecer mais sobre esse
tipo de serviço, Época São Paulo marcou consultas com alguns desses
profissionais da amarração do amor.

O primeiro telefonema foi para o Pai Guerreiro. Sobre a eficácia do método, a
secretária foi taxativa: “Claro que funciona, quando as coisas não vem por bem,
a gente tem de fazer vir por mal”. O preço da consulta, feita com búzios ou
tarô, era de R$ 20. A amarração, que prometia trazer o amado de volta, sairia
por R$ 200. A casa fica em Pinheiros, na zona oeste de São Paulo. Ao lado de um
carro da Mercedes Bens estacionada na garagem, um homem de camisa e calça
sociais recebe a reportagem e avisa que a consulta será realizada em outra casa,
duas ruas acima. Depois da espera em uma confortável sala de estar, ele pede
para ser seguido até um cômodo apertado e empoeirado nos fundos da casa, com uma
estátua do preto velho na entrada e imagens de santos no interior.

Uma mãe de santo vestindo avental de médico pergunta o nome completo, a
profissão e pede que o celular e os óculos sejam deixados de lado, para evitar
que “as energias se cruzem com as entidades”. Em seguida, começa a falar sobre a
vida do cliente enquanto tira as cartas. Segunda ela, a menina desejada estaria
indiferente porque alguém já teria feito uma amarração para ela que duraria 14
anos.

Segundo a consultora espiritual de Pinheiros que atende na casa do Pai
Guerreiro, o trabalho de “amarração” da ex-namorada teria custado R$ 7 mil.
Portanto ela cobraria R$ 3 mil para desfazer o serviço para sempre – um preço
módico para ter o amor da vida de volta. Mas o “para sempre” depende da vontade
do cliente: “Quando você não quiser que ela goste mais de você, eu desfaço o
trabalho, sem cobrar”.

Para fazer a amarração, além de dinheiro, é necessário levar uma foto da garota,
com os nomes do futuro casal escritos no verso, dentro de um coração. Além
disso, a consultora espiritual pede garrafas de uísque doze anos e champanhe
importada. Sob o argumento de que o valor era alto, ela afirma: “Não tem
problema, nós aceitamos cartão, posso parcelar para você”.

Escritório esotérico

Pai Léo trabalha com búzios, tarô e baralho cigano no Centro da cidade
O Pai Leo, outro pai de santo, atende no centro da cidade, em um conjunto
comercial na rua Barão de Itapetininga. A recepção de seu escritório esotérico
tem de tudo, de painéis indianos a imagens de orixás, passando por uma televisão
de plasma e aranhas de plástico. Ele tem 36 anos e atende cerca de 10 pessoas
por dia quando o movimento está bom. A consulta de búzios, tarô e baralho cigano
custa R$ 35 reais. “Eu não faço amarração, isso é coisa para tirar dinheiro dos
outros, se pudesse, nem cobraria pela consulta”, diz. O que o Pai Leo faz,
segundo ele, é um “trabalho de purificação”.

Escritório esotérico de Pai Leo tem de painéis indianos a imagens de orixás
“Não faço trabalhos para o mal”, afirma, “meu serviço é ajudar as pessoas a
ressarcirem a natureza das coisas que tiram dela para sobreviver”. De acordo com
o vidente, as oferendas são feitas na cachoeira, junto com o cliente, e incluem
só coisas vivas, como peixes, mudas de árvore e frutas. “Dependendo do tipo do
trabalho, as coisas precisam ser de qualidade melhor, como salmão e figos”, diz.
No final, se o cliente quiser, ele pode dar um presente para o Pai Leo. “Já
ganhei até carro.” Depois da consulta, ele pede para divulgar o seu site:
http://www.reidosvidentes.com.br.

Protocolos diferentes
Em um outro endereço, na zona sul da cidade, a consulta era mais cara: R$ 50. A
amarração não seria cobrada, mas só seria feita se o interessado fosse
predestinado à mulher desejada. Depois de cinco minutos de jogo, o resultado foi
categórico: ela não faria a amarração, não adiantava insistir. Quando perguntada
sobre o altar com imagens e terços, ela pediu para que não chegasse muito perto
para não cruzar as energias.

Próximo à Santa Cecília, uma outra taróloga parece afeita ao faça você mesmo:
“não fazemos amarração, nós ensinamos o cliente a fazer”, diz. Ela não pôde ser
entrevistada porque não tinha autorização de seus guias espirituais. “O que
acontece aqui é muito íntimo para os clientes. Quem nos procura já passou muitas
vezes por médicos e psicólogos”, afirma.

A prática de jogos de adivinhação, como o tarô, o baralho e os búzios, estão
fortemente ligados ao candomblé e umbanda, religiões de influência africana. “Os
jogos servem para falar do destino pessoal de cada um”, explica Brígida
Malandrino, doutora em Ciências da Religião pela PUC.

“Muitos dos que anunciam serviços de ‘amarração do amor’ não praticam a religião
do candomblé e da umbanda de forma institucionalizada”, afirma Malandrino. Mas
existem pessoas que conciliam as duas coisas: vão ao terreiro e atendem
individualmente. “É como se dizer católico, por exemplo, e não respeitar todos
os dogmas da Igreja”, diz. [i]

http://revistaepocasp.globo.com/Revista/Epoca/SP/0,,EMI216421-17276,00.html

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