IGREJA INCENDIADA DEPOIS DE RIXA NO EGITO

março 6, 2011 § Deixe um comentário

DIÁRIO DE NOTÍCIAS, 05-03-2011

MULTIDÃO INCENDEIA IGREJA DEPOIS DE RIXA RELIGIOSA

Uma igreja foi hoje incendiada no Egipto por uma multidão que atacou o templo
depois de terem morrido dois muçulmanos da mesma família, que lutaram porque a
filha de um deles tinha uma relação amorosa com um cristão.
Um camponês e um familiar morreram durante a noite na aldeia Sol, ao sul do
Cairo, devido a uma rixa que degenerou em tiroteio, do qual também resultou mais
uma pessoa ferida da mesma família, segundo uma fonte dos serviços de segurança
egípcios citada pela agência de notícias Mena, conforme noticia a EFE.
A discussão começou porque a filha do agricultor namorava com um comerciante
cristão e os seus parentes não viam com bons olhos a relação.
Hoje, depois do funeral, um grande número de pessoas dirigiu-se para a igreja
dos “Dois Mártires” e incendiou-a, tendo também sido destruído o seu mobiliário.
A Protecção Civil e os bombeiros egípcios acorreram ao local para evacuar os
religiosos que se encontravam no templo, não havendo registo de feridos.
O ministério do Interior fez um apelo aos cidadãos para conterem os efeitos
deste acontecimento e para não se juntarem aos “elementos que têm como objectivo
promover a violência sectária”, reportou a Mena.
Na última noite de 2010, um total de 23 pessoas morreram num atentado contra uma
igreja na Alexandria, na costa mediterrânica egípcia. Segundo as autoridades
egípcias, o grupo palestiniano Exército do Islão, vinculado com a Al Qaeda, foi
o responsável pelo planeamento e execução do ataque. [i]

http://www.dn.pt/inicio/globo/interior.aspx?content_id=1799600&seccao=%C1frica&p
age=-1

OPINIAO: REVOLTA NO EGITO – LAICA E ISLAMICA

março 4, 2011 § Deixe um comentário

ALÉM-MAR, 01-03-2011

Revolta no Egipto: Não só política mas também espiritual e islâmica

Por: SAMIR KHALIL SAMIR, Asianews

Intelectuais e teólogos traçam as perspectivas para uma mudança também do Islão:
valor da mulher e mistura entre sexos, recusa do salafismo integralista, procura
de uma religiosidade do coração e da liberdade, contra o formalismo do véu, da
barba e das práticas rituais externas. E sobretudo dão as boas-vindas à
laicidade, à separação do Islão da política.

O documento sobre a renovação do Islão difundido pela revista egípcia O Sétimo
Dia («Imã e intelectuais egípcios: Renovar o Islão em direcção à modernidade»)
está a suscitar muito interesse na Internet. Num só dia ele foi espalhado por
pelo menos 12 400 sítios árabes. Cada um destes sítios teve numerosos
comentários por parte do público. O documento foi redigido pela revista com base
nas respostas recebidas de mais de 23 personagens entrevistadas. A importância
do documento permanece antes de mais porque os temas foram indicados pelos 23
peritos e depois porque a tentativa da revista é lançar um interessante projecto
de reforma do discurso islâmico.
Um outro aspecto interessante é que este projecto de reforma do Islão foi
publicado a 24 de Janeiro, um dia antes da explosão das manifestações no Egipto,
que levaram à queda de Mubarak. Tais manifestações têm motivos económicos e
políticos. Isso significa que além da corrente política, há uma corrente
intelectual que está farta do Islão difundido nos últimos 30 anos no país, um
Islão «exteriorizado», que põe a tónica nas coisas exteriores (o vestir, a
barba, o véu…). Isto mostra que no Egipto há um movimento global – ao mesmo
tempo que espiritual e político – que gostaria de transformar o país. E uma vez
que ele é um país líder em todo o Médio Oriente, pode pensar-se que as
transformações que se projectam no Cairo se difundam em toda a região. As
próprias manifestações, que entretanto aconteceram nas ruas da capital, poderão
ter influência também sobre este Islão «exteriorizado».

Mistura entre sexos

O documento analisa 22 questões relevantes para o Islão hoje. Há por exemplo a
questão 3 que fala da mistura entre sexos. O seu comentário diz que os ulemás
deveriam ter em conta as circunstâncias em que isso acontece e conciliá-lo com a
Charia. Se a mistura entre sexos se prende com questões de necessidade, então
não há problema. Citam um exemplo: na universidade há estudantes do sexo
masculino e feminino. Sendo esta uma necessidade do estudo, não há problema que
os estudantes do sexo masculino e feminino se misturem. O mesmo se diga no
tocante ao trabalho. Ao contrário, os intransigentes recusam qualquer mistura.
Na Arábia Saudita, os estudantes universitários do sexo masculino estão perante
o professor; as raparigas estão noutra sala, com uma televisão por cabo.
As declarações reformistas sublinham que, contudo, o Islão não proíbe a relação
entre homem e mulher. Tal relação no Egipto estava a tornar-se um problema
porque o estilo «puritano» se difundiu cada vez mais. Provocou muita celeuma, há
tempos, a fatwa de um doutor de direito corânico (faqih). Uma mulher, num
programa de televisão, explicava que por exigências de trabalho tinha de estar
no mesmo escritório com um homem. Mas isso era proibido pela Charia; a mulher
não podia despedir-se e pediu ajuda. O ulemá ofereceu a solução: a mulher teria
de «ter amamentado» o seu colega. Perante o escândalo suscitado entre o público
ali presente, o ulemá explicou que desse modo o colega se teria tornado «como
que um filho» para a rapariga e assim poderiam estar juntos no escritório, sem
possíveis relações sexuais (dado o novo «parentesco»). Face ao espanto das
pessoas, o ulemá defendeu-se dizendo que «é preciso julgar não com o coração,
mas com o direito». Esta fatwa suscitou muitíssimas reacções no mundo islâmico,
a ponto de o ulemá ter corrido o risco de perder o trabalho.

A jihad

O sexto ponto trata da jihad, a guerra santa. Segundo os reformadores, a jihad
no Islão é dirigida contra os ocupantes nos países muçulmanos: «Matai no caminho
de Deus aqueles que combatem contra vós, mas não tomeis a iniciativa da
agressão» (Alcorão 2, 190). Nos comentários a este versículo, precisa-se que é
proibido matar gente desarmada, crianças, velhos, mulheres, sacerdotes,
religiosos, e destruir casas de oração. E acrescentam: tal visão – tão moderna –
está presente no Islão desde há 1400 anos.
Na análise destes reformistas, a jihad só pode ser defensiva e só em terra
muçulmana. O problema põe-se quando os muçulmanos fazem jihad nos tempos e
lugares errados (entende-se obviamente que é errado agredir a gente na Europa,
por exemplo, que não é «terra islâmica»).
Quando fazê-la, quem pode fazê-la, onde se pode fazer: a resposta a estas
perguntas torna a jihad correcta do ponto de vista islâmico. Deste modo, os
reformistas condenam todo o terrorismo islâmico, os ataques à igreja de
Alexandria e de Bagdad. Deve ser dito que esta interpretação da jihad é
clássica, mas infelizmente há interpretações muito contrárias, que justificam o
terrorismo.

A religião exterior

O ponto 7 explica a necessidade de «bloquear as agressões sobre a religiosidade
exterior e os usos estrangeiros que nos chegam dos Estados vizinhos». Quem
combate este Islão exteriorizado, diz que este é um fenómeno novo, com apenas 30
anos. Isso deve-se ao facto de muitos egípcios terem ido trabalhar para a
península Arábica e terem regressado com usos não locais. A revista explica que
também o Egipto tem os seus costumes e modos de vestir para alguns cargos no
Islão. Mas – diz-se – «nos últimos tempos começámos a imitar no vestir as nações
vizinhas [na prática, a Arábia Saudita – ndr] com barba até ao peito, a túnica
longa (jilaba), o véu… Depois chegou-se à obrigação para as mulheres de usar o
niqab, o véu integral como expressão de modéstia». E citam o Alcorão 24, 30:
«Diz aos crentes para baixar o seu olhar e ser castos.»
O documento afirma que «o importante é a modéstia do olhar». Recorde-se que no
último ano houve milhares de agressões contra mulheres que não vestiam à maneira
islâmica. «O exterior – explicam os peritos reformadores – tornou-se hoje a
religião. O modelo do crente tornou-se no Egipto a aparência da religiosidade,
sem ir à procura da pureza do coração e da castidade do olhar, que o niqab não
pode esconder.»
Estes sublinhados são fundamentais e muito próximos do Evangelho. É um novo
alento místico que adverte: não conseguireis salvar a pureza da relação entre
homens e mulheres somente com o uso de vestes.
E acrescentam: esta gente – que trouxe modos de vestir do estrangeiro – dividiu
as famílias, põem uns contra os outros, porque os homens querem impor o véu e as
raparigas recusam-no. «Tornámo-nos», conclui o documento, «uma nação que se
preocupa com o exterior e tem o vazio no interior.»

Religião e Estado

O ponto 8 penso que seja o mais importante e trata da separação entre religião e
Estado. O documento usa a palavra «almaniyyah», laicidade. No Sínodo sobre o
Médio Oriente, tivemos receio de usar esta palavra porque ela é comummente
entendida como «ateísmo», indicando assim somente uma laicidade inimiga da
religião e por isso de rejeitar. Ao contrário, o documento usa precisamente esta
palavra. E explica que ela é baseada na ideia da separação entre religião e
Estado. A laicidade – dizem eles – não deve ser considerada como o oposto da
religião, mas é preciso ver nela uma salvaguarda contra o uso político ou
comercial da religião. «Neste contexto», afirma-se, «a laicidade está em
sintonia com o Islão e por isso a laicidade é juridicamente aceitável. O mesmo
se diga sobre o controlo das actividades [islâmicas] do Estado.»
A laicidade ateia, pelo contrário, vê a religião como uma amarra e por isso
pretende a liberdade absoluta. Esta laicidade é oposta ao Islão, que põe certos
limites. Quem quer escolher a fé deve fazê-lo por convicção e portanto aceitar
as normas da religião, e não pode brincar com elas. Diz-se, portanto, que há uma
laicidade extremista e uma boa. Na Internet, este ponto sobre a laicidade atrai
muitas críticas. Por exemplo, o sítio «Os guardiães do dogma» publica uma
crítica. «Todos devem saber que a laicidade significa não religiosidade, e que a
não religiosidade é a via rápida que conduz ao ateísmo. O Islão deve combatê-la
porque na laicidade há uma semente de todos os males, etc.»
Este ponto, embora muito debatido, mostra que no Egipto está a nascer o conceito
de sociedade civil, não imediatamente coincidente com a comunidade islâmica.

Atitude perante o salafismo

Também o ponto 9 é interessante. Ele pede para «purificar o património dos
“primeiros séculos do Islão” (salafismo), eliminando os mitos (khurâfât) e as
agressões contra a religião». O documento afirma que «liberdade, igualdade,
conhecimento, justiça e ciência são os valores mais importantes que o Alcorão
trouxe até nós quando foi revelado há 14 séculos. Eles são valores claros sobre
os quais não há contraste. Não é permitido minimizar estes valores. Nós temos
uma grande necessidade destes grandes valores, mais ainda do que no passado». E
acrescenta: «Os países não se desenvolvem senão com base nestes valores e não
terão qualquer renascimento (nahda) senão com a abolição do património salafita,
que deve ser considerado um freio sobre a comunidade islâmica, com aquilo que
ele comporta de mitos ou invenções de conserto, ou agressões da religião.»
Estas afirmações encaram frontalmente as práticas do integralismo sufocante (o
vestir, o puro e o impuro, as leis, etc.). Para um salafita, por exemplo, é
proibido sentar-se numa cadeira porque o profeta sentava-se no chão; não se
devem usar palitos comuns, mas devem palitar-se os dentes com um pauzinho tirado
de uma planta da Arábia Saudita (miswak)! Com estas críticas, o documento tende
a reformar o Islão, impelindo-o para um salto religioso mais espiritual.

Reflexão final

A julgar pelos comentários encontrados na Internet, vê-se que a maioria,
contrária ao documento, é presa do Islão exterior, tradicional, formal,
farisaico. Mas há muitos intelectuais e religiosos que pensam de modo moderno;
estes, porém, não têm o apoio das instituições.
Diante das revoltas sociais e dos impulsos à mudança que estão a acontecer em
vários países do Médio Oriente e da África do Norte, é preciso dizer que o
salafismo de algum modo é uma espécie de «ópio do povo»; ele focaliza a atenção
das pessoas sobre práticas religiosas exteriores e secundárias, sem se preocupar
com a sociedade, o desenvolvimento, o bem-estar. Por sua vez, os poderes
políticos deixam fazer, contanto que eles não se metam na política.
No Egipto, o poder político não é uma ditadura pura, mas para poder continuar
fez concessões cada vez maiores ao salafismo. O poder político mostra-se
«islâmico» de forma a não cair na crítica do salafismo, ou da Irmandade
Muçulmana. Mas cada concessão reforçou este Islão exterior e conduziu a novas
concessões.

Exigência de Liberdade

Os bispos dos países do Magrebe, no Norte de África, reconhecem que os
acontecimentos que se estão a desenrolar na Tunísia, no Egipto e na Líbia
manifestam uma «exigência de liberdade e dignidade por parte das populações,
especialmente por parte das gerações jovens, que se traduz na vontade de serem
reconhecidos como cidadãos livres e responsáveis».
A afirmação foi feita pelos bispos da Conferência Episcopal do Norte de África
(CERNA, que agrupa os bispos da Tunísia, da Argélia, de Marrocos, da Líbia e do
Sara Ocidental), que se reuniram na Argélia de 29 de Janeiro a 2 de Fevereiro.
Alinhando com a mensagem do papa Bento XVI para o Dia Mundial da Paz de 2011, os
bispos defendem a liberdade religiosa como caminho para a paz e dizem que «a
liberdade religiosa é a garantia do respeito completo e recíproco entre as
pessoas e que se deve traduzir, antes de mais, na liberdade de consciência
reconhecida a todos».
Além de defenderem a situação dos emigrantes clandestinos que dos países do
Norte de África procuram chegar à Europa, os bispos reafirmaram que a Igreja no
Norte de África está, sem distinções, ao serviço de cristãos e muçulmanos, das
suas aspirações de maior dignidade e melhores condições de vida.
Na conclusão dos seus trabalhos, os bispos sublinharam ainda «as relações de
amizade tecidas com os muçulmanos» e defenderam «a prossecução do diálogo
inter-religioso» e da «colaboração com a sociedade civil». As manifestações
populares da Tunísia e do Egipto juntaram nas ruas tanto muçulmanos como
cristãos, que com uma mesma voz se levantaram contra a pobreza, a corrupção e o
aumento do custo de vida. [i]

http://www.alem-mar.org/cgi-bin/buildprint.pl?EkAAEVEVFEJahUyzNN

ANALISTAS INSISTEM EM CULPAR OS ISLAMICOS RADICAIS

março 1, 2011 § Deixe um comentário

PLANETA OSASCO, 28-02-2011

ANALISTAS INSISTEM EM CULPAR OS ISLÂMICOS RADICAIS

São revoltas seculares. Por que só se fala das religiões?
Por Robert Fisk (do Bahrain)

Por que tantos intérpretes cultos, embora impressionantemente antidemocráticos, insistem em interpretar tão mal as revoltas árabes?

Mubarak alegou que os islamistas estariam por trás da Revolução Egípcia. Ben Ali disse o mesmo, na Tunísia. O rei Abdullah da Jordânia vê uma sinistra mão escura – da al-Qa’ida, da Fraternidade Muçulmana, sempre mão islâmica – por trás da insurreição civil em todo o mundo árabe. Ontem, autoridades do Bahrain descobriram a amaldiçoada mão do Hizbollah, ali, por trás do levante xiita. Onde se lê Hizbollah, leia-se Irã.

Por que, diabos, tantos intérpretes cultos, embora impressionantemente antidemocráticos, insistem em interpretar tão mal as revoltas árabes? Confrontados por uma série de explosões seculares – o caso do Bahrain não cabe perfeitamente nessa classificação – todos culpam os islâmicos radicais. O Xá cometeu o mesmo erro, só que ao contrário: confrontado com um óbvio levante islâmico, pôs a culpa nos comunistas.

Os infantilóides Obama e Clinton acharam explicação ainda mais esdrúxula. Depois de muito terem apoiado as ditaduras “estáveis” do Oriente Médio – quando tinham a obrigação de defender as forças democráticas –, resolveram apoiar os clamores por democracia no mundo árabe, justamente quando os árabes já estão tão absolutamente desencantados com a hipocrisia dos ocidentais, que não querem os EUA ao lado deles. “Os EUA interferem em nosso país há 30 anos, apoiando o governo de Mubarak, armando os soldados de Mubarak” – disse-me um estudante egípcio na praça Tahrir, semana passada. “Agora, agradeceríamos muito se parassem de interferir, mesmo que a nosso favor.” No final da semana, ouvi vozes idênticas no Bahrain. “Estamos sendo assassinados por armas dos EUA, disparadas por soldados bahrainis treinados nos EUA, em tanques fabricados nos EUA” – disse-me um médico na 6ª-feira. “E Obama, agora, quer aparecer como nosso aliado?”

Os eventos dos últimos meses e o espírito antirregime da insurreição árabe – que clama por dignidade e justiça, não por algum emirado islâmico – ficarão nos nossos livros de histórias por séculos e séculos. E o fracasso dos islamistas mais obcecados será discutido por décadas. Havia especial ardor na gravação da al-Qa’ida divulgada ontem e gravada antes da queda de Mubarak, que falava da necessidade de o Islã triunfar no Egito. E uma semana antes, homens e mulheres, seculares, nacionalistas, egípcios, muçulmanos e cristãos, pela própria força e meios, haviam-se livrado do velho ditador, sem qualquer ajuda de Bin Laden Inc.

Ainda mais esquisita foi a reação do Irã, cujo supremo líder convenceu-se de que o sucesso do povo egípcio fora sucesso do Islã. Só a al-Qa’ida, o Irã e seus mais odiados inimigos – os ditadores anti-islamistas – ainda creem que a religião esteja por trás da rebelião das massas democráticas no Oriente Médio.

A mais terrível ironia de todas – de que só muito lentamente Obama deu-se conta – é que a República Islâmica do Irã elogiava os democratas do Egito, ao mesmo tempo em que ameaçava executar seus próprios opositores.

Não foi, como se viu, uma grande semana para o “islamicismo” [orig. “Islamicism”]. Há detalhes a considerar, é claro. Quase todos os milhões de manifestantes árabes que querem quebrar o pescoço da autocracia que – com importante colaboração ocidental – sufoca a vida deles com humilhações e medo, são, sim, muçulmanos. E os muçulmanos – diferentes do ocidente ‘cristão’ – não perderam a fé.

Contra os tanques e chicotes e porretes dos assassinos da polícia de Mubarak, eles lutavam a pedradas, gritando “Allah akbar”, e aquela luta era, sim, para eles, uma “jihad” – palavra que não significa “guerra religiosa”, mas significa “lutar pela justiça”. Gritar “Deus é grande” e lutar por justiça são movimentos absolutamente lógico-consistentes e esse é o próprio espírito profundo do Corão.

No Bahrain temos caso especial. Aqui, a maioria xiita é governada por uma minoria de muçulmanos sunitas pró-monarquia. A Síria, aliás, pode ser contaminada pela “bahrainite” pela mesma razão: ali também uma maioria sunita é governada por uma minoria alawita (xiita). Mas, ora essa, o ocidente pode alegar, pelo menos – no já bem pouco entusiasmado apoio que ainda oferece ao rei Hamad do Bahrain – que o Bahrain, como o Kuwait, tem um Parlamento. É pobre mostrengo velho, que existiu de 1973 a 1975, quando foi inconstitucionalmente dissolvido, e depois reinventado, em 2001, num pacote de “reformas”. Mas o novo parlamento conseguiu ser ainda menos representativo que o anterior. Os políticos da oposição foram caçados pela polícia política, e os distritos eleitorais redesenhados, ao estilo do Ulster, para garantir que a minoria sunita controlasse todo o parlamento. Em 2006 e 2010, por exemplo, o principal partido xiita no Bahrain ganhou só 18, dos 40 assentos no parlamento. Há clara semelhança com o que houve na Irlanda do Norte, nas perspectivas dos sunitas no Bahrain. Muitos me disseram que temem pela vida; que temem que soldados xiitas queimem suas casas e matem suas famílias.

Tudo isso haverá de mudar. O controle pelo Estado só é efetivo se for legítimo, e usar munição real contra manifestantes pacíficos e desarmados só sugere que as coisas podem acabar, no Bahrain, numa série de pequenos “Domingos Sangrentos”. Quando os árabes tenham aprendido a domar o medo, poderão exigir direitos civis, como os católicos na Irlanda do Norte exigiram, chegada a hora, ante a brutalidade do Royal Ulster Constabulary (RUC, polícia da Irlanda do Norte). No final, os britânicos tiveram de desconsiderar a legislação unionista e admitir que o IRA (Irish Revolucionary Army) dividisse o poder com os protestantes. Os paralelos não são exatos e os xiitas (ainda) não têm milícias, embora o governo do Bahrain tenha exibido fotografias de pistolas e espadas – para o IRA, sequer seriam consideradas armas –, para provar que haveria “terroristas” entre os manifestantes.

Há no Bahrain, sim, uma batalha sectária, ao lado de uma batalha secular, algo que até o Príncipe Coroado acertou ao reconhecer, quando disse, originalmente, que as forças de segurança tiveram de suprimir os protestos para evitar a violência sectária. É ideia que tem sido divulgada empenhadamente pela Arábia Saudita, que tem fortes interesses em suprimir qualquer agitação no Bahrain. Os xiitas da Arábia Saudita podem ver suas posições reforçadas se xiitas do Bahrain passarem a controlar o Estado. Nesse caso, sim, os líderes da República Islâmica Xiita por-se-ão, de fato, a cantar de galo.

Mas essas insurreições interconectadas não devem ser postas como fatores determinantes de tudo que aconteça no Oriente Médio. O levante no Iêmen contra o presidente Saleh (há 32 anos no poder) é democrático, mas também é tribal, e a oposição não tardará a armar-se. O Iêmen é sociedade pesadamente armada, várias tribos, cada qual com sua bandeira, nacionalismo rampante. E, depois, há a Líbia.

Gaddafi é non-sense, com suas teorias do “Livro Verde” – mas despachou os manifestantes benghazi, semana passada, quanto exibiram versão concreta desse específico volume –, extravagante, seu governo é desumano, cruel (e já dura, lá, há 42 anos). É um Ozymandias[1] antes da queda. Seu flerte com Berlusconi – ainda pior: seu caso de amor com Tony Blair, cujo secretário do Exterior, Jack Straw, chamava de “estadista” o lunático da Líbia – jamais o salvará. Mais coberto de medalhas que o general Eisenhower, em busca desesperada de um cirurgião plástico que lhe ajeite a papada, essa ruína humana ameaça agora com castigo “terrível” os líbios que o desafiem. Sobre a Líbia é preciso lembrar duas coisas: como o Iêmen, a Líbia é terra de tribos; e, quando a Líbia levantou-se contra os fascistas, deu início a uma guerra de libertação. Os bravos comandantes líbios enfrentaram o laço da forca com inacreditável coragem. Gadafi é doido. Isso não implica que os líbios sejam idiotas.

Por tudo isso, está acontecendo um maremoto político, social, cultural, no mundo do Oriente Médio. Haverá muitas tragédias, muito sangue derramado, muitas novas esperanças. O melhor a fazer é não ler, ignorar completamente todos os analistas e os “think tanks” cujos ‘especialistas’ imbecilizados dominam todos os canais de televisão. Se os checos podem ser livres, por que os egípcios não poderiam? Se se podem por abaixo ditaduras na Europa – primeiros os fascistas, depois os soviéticos – por que não se podem derrubar ditadores no grande mundo árabe muçulmano? E – só por um instante, pelo menos – deixem a religião fora da discussão. [i]

http://www.planetaosasco.com/oeste/index.php?/201102289026/Nosso-pais/analistas-insistem-em-culpar-os-islamicos-radicais.html

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