TOPLESS LESBICO EM CAPELA DEIXA ICAR INJURIADA

março 18, 2011 § Deixe um comentário

PARACLITOS, 18-03-2011

ATO SACRÍLEGO REALIZADO EM CAPELA CATÓLICA NA ESPANHA POR LÉSBICAS

MENDES SILVA I.

70 jovens foram a uma capela da Universidade Complutense de Madrid proferindo
insultos contra a Igreja Católica, o Papa e o clero, enquanto algumas garotas
que faziam parte da profanação se despiram da cintura para acima ao redor do
altar ante os aplausos do resto.

Conforme assinala o jornal espanhol ABC, uma aluna da faculdade de ciências
econômicas que foi testemunha dos fatos e que estava rezando na capela do campus
de Somosaguas da universidade madrilenha, disse que duas das jovens ao redor do
altar “fizeram alarde de sua tendência homossexual”.

Os vândalos ingressaram com um megafone até a sala de espera da capela. O
capelão se precaveu do barulho e tentou detê-los mas foi sacudido.

No lugar os agressores leram textos e frases que, diziam, eram de autores
cristãos sobre a mulher. Também deram leitura a um manifesto com afirmações e
julgamentos contra a Igreja e seus ensinamentos e puseram pôsteres nos murais da
entrada à capela, e nos bancos da mesma. Tudo foi fotografado e filmado. Aqui
podem ser vistas algumas fotos

Uma aluna da universidade citada pela ABC sem dar seu nome assinalou que “à
margem das crenças religiosas de cada um `destes’, não resisto em elevar a voz
ante um fato tão lamentável como este. O que teria acontecido se algo assim
acontecesse em uma mesquita? Que `esses’ saibam que os católicos nunca
responderão à provocação com provocação para defender-se”.

“Ninguém poderá nos calar, ante o mais mínimo atropelo, brincadeira, intimidação
ou qualquer outra obrigação ilegítima que ofenda os sentimentos religiosos de
ninguém. Além disso, ações como estas estão castigadas por nosso ordenamento
jurídico. Como é fácil e covarde atuar no anonimato!”, acrescentou.

O Reitorado da Universidade Complutense condenou a profanação da capela do
campus de Somosaguas e anunciou uma investigação “para delimitar possíveis
responsabilidades”.

“Este Reitorado reitera a necessidade de manter o respeito à pluralidade de
cultos e crenças religiosas e faz uma chamada à tolerância e à convivência ante
as expressões das mesmas. A neutralidade do Estado em matéria religiosa
significa que não se pode impor nem perseguir crença alguma. A tolerância e o
respeito são absolutamente indispensáveis”, indica o comunicado.

O jornal ABC assinala que esta agressão não é nova já que ao início da semana as
paredes e portas do recinto apareceram pichadas com insultos para os católicos
(como se vê na foto).

Rechaço da Arquidiocese de Madrid

Em uma nota de imprensa divulgada ontem, o Arcebispado de Madrid rechaçou a
profanação da capela do campus de Somosaguas da Universidade Complutense de
Madrid.

No texto se destaca que “diante destes fatos absolutamente reprováveis, que são
objeto de delito, e que denigrem em primeiro lugar quem os comete, o Arcebispado
de Madrid elevou sua queixa ao Reitorado da Universidade”.

Deste modo o Arcebispado denunciou que “estas ações são um atentado à liberdade
de culto e uma profanação de um lugar sagrado, o qual suporta penas canônicas no
caso de que aqueles as cometeram estejam batizados”.

Finalmente a nota afirma que “é indigno que, em uma sociedade democrática onde
se pede o respeito às pessoas, às instituições religiosas e ao direito da
celebração pública da fé na Universidade Complutense -com a que a Igreja mantém
uma estreita e amigável relação de colaboração-, alguns jovens possam manchar
com este tipo de comportamentos o bom nome e trabalho da comunidade
universitária”.

Clique Aqui para protestar contra esta blasfêmia, exigindo ao reitor da
Universidade 1) a identificação dos estudantes que participaram do vandalismo;
2) o auxílio à polícia na obtenção do material que comprove o crime; 3) o
fechamento desta citada associação de estudantes; e 4) a expulsão do líder
(máximo responsable) da manifestação.

– – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – –
por ACI Digital

[i]

http://www.paraclitus.com.br/2011/blog/ato-sacrilego-realizado-em-capela-catolic
a-na-espanha-por-lesbicas/

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A concordata Brasil Santa Sé

março 8, 2011 § Deixe um comentário

estado e igreja

Em 31 de março de 2003, o diplomata Celso Amorim se encontrou com o papa João Paulo 2. O porta-voz do governo Lula foi dizer que o mundo precisava de um líder ‘espiritual’, em um momento de repercussão da guerra no Iraque (1).

No ano de 2007 o novo papa vem ao Brasil e disse que condenava o aborto, a eutanásia, os ‘desvios sexuais’ e o divórcio. Defendeu a castidade antes do casamento e os ‘valores da família’. E o Lula rejeitou a concordata, dizendo que queria ‘preservar e consolidar o estado laico’.
Depois de ter recebido na mão um beijo simulado de Marisa, o papa abençoou o terço usado no casamento de Lula com Marisa e fez o sinal da cruz na testa dos netos do Lula e no do Serra (2). Bento 16 foi embora dia 13 de maio (3).

Dezenove meses depois, 13 de novembro de 2008, Lula se encontra com o papa. A comitiva ao Vaticano tinha Marisa Letícia, usando um colar dourado com uma medalha de n. s. Aparecida, Dilma Rousseff, e duas embaixadoras, Vera Machado e Edileusa Fontenele. Todas estavam de preto até o lenço na cabeça. Os outros eram Celso Amorim, Nelson Jobim e o secretário-geral Luiz Dulci.
Lula e bento 16 tiveram uma conversa reservada de 24 minutos (ele, Ratzinger e um intérprete) (4).
Acabado o reservado Lula se pronunciou assim: “a relação da Igreja com o Brasil é indissociável”.
Eles tinham acabado de assinar a concordata, onde o governo brasileiro favorece a igreja católica dentro do nosso território, através do braço político e jurídico do vaticano, a Santa Sé.
São 17 cláusulas de teor político, jurídico e administrativo que foram incluídas em nossa constituição e leis, isentando a ICAR de impostos, favorecendo convênios com repasse de dinheiro do governo, criando apartes na lei trabalhista em relação ao emprego dos sacerdotes, fazendo a inserção do ensino católico nas escolas públicas, responsabilizando o Brasil sobre patrimônio da ICAR por aqui… Um acordo obviamente inconstitucional, contrariando o aspecto laico e a neutralidade do estado, previamente garantidos desde a constituição de 1891, e outras constituições.
Em seguida o Celso Amorim declarou que no Brasil “sempre existiu separação entre igreja e estado”, mas elogiou o ‘apoio espiritual’ da igreja.
Como sempre existiu separação entre igreja e estado se acabaram de assinar uma concordata garantindo privilégios jurídico-administrativos com uma igreja em particular?
Mais tarde o Cardeal Cláudio Hummes disse que a ICAR nunca buscou privilégios e que a concordata afirmava a ‘pluralidade religiosa’ e o ‘caráter laico’ do estado. Como se outras religiões tivessem sido consultadas…
Naquele mesmo dia Lula pediu ao papa para que ele desse conselhos sobre a crise financeira internacional. Interessante, pois o banco do Vaticano praticava lavagem de dinheiro (5)(6)…

Em fevereiro de 2009 uma ação popular contra a concordata foi movida por advogados do estado de São Paulo, pontuando as inconstitucionalidades do ‘tratado internacional’ – Processo nº 2009.61.19.001298-9, da 6ª Vara Federal de Guarulhos (7).

B – Dos Motivos:

As ofensas e perigos que representa o documento assinado, nesta fase atacável pela via aleita, além dos acima apontados, sem falar ainda o descumprimento da Lei Federal nº 9.709/98, arts. 1º ao 3º, e seguem no seguinte:

I – Ofende os princípios constitucionais da SOBERANIA, da CIDADANIA, da DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA, do PLURALISMO POLÍTICO, da PREVALÊNCIA DOS DIREITOS HUMANOS, da COOPERAÇÃO DOS POVOS PARA O PROGRESSO DA HUNANIDADE, da ISONOMIA, dos DIREITOS SOCIAIS e da LAICIDADE ESTATAL dispostos nos arts. 1º, incs. I, II, III, IV, V, 4º, incs. II, IX, 5º “caput” e incs. VI, VIII, IX, X, XIII, XVII, XVIII, XX, XXI, XXII, XXIV, XXVII, LIII, LIV, LVII, 6º, 7º, 19, incs. I e III dentre outros

Se o Congresso Nacional, ratificá-lo, estará reconhecendo que a ICAR é a única Igreja Cristã e todas as demais para assim se entenderem, deverão a ela unir-se, curvar-se a seus dogmas, obedecer à mesma legislação canônica, reconhecendo o Papa, não como estadista, mas como sucessor de Pedro e em lugar de Cristo (contrariando as demais correntes histórico-teológicas) – SUPREMA AUTORIDADE DA IGREJA, e em todas as cerimônias oficiais do ESTADO, o representante da ICAR deverá estar presente e participar oficialmente, inseri-las nas discussões e questões de Estado, e erigi-la à condição de IGREJA OFICIAL.

Um ano depois, no dia 11 de fevereiro de 2010, o presidente Lula promulga o decreto 7107 que materializava a concordata na legislação brasileira, a publicação no diário oficial da união foi no dia seguinte (8).
Seis meses depois a procuradoria geral da união entrou com uma ação para tentar acabar com o ensino religioso nas escolas públicas (9)(10).

No mérito, Deborah Duprat requer a interpretação conforme a Constituição do artigo 33, parágrafos 1º e 2º da LBD, para assentar que o ensino religioso em escolas públicas deve ser de natureza não-confessional.

No final de 2010 o Vaticano manda um recado pra então futura presidenta Dilma em forma de cobrança, querendo que o Brasil preserve o acordo sancionado pelo Lula (11).

Dois meses atrás, em janeiro de 2011, um ministro do Vaticano disse que Dilma ‘tinha que explicar suas convicções’ (12).

Duas semanas atrás o conselho municipal de educação do Rio de Janeiro suspendeu o ensino religioso (13).

O julgamento no STF sobre a ação da PGU vai decidir um ponto importante da concordata e da LDB, que é sobre o ensino religioso nas escolas públicas, querendo a efetividade do estado laico sem conceder privilégios a qualquer igreja em particular, incluindo a ICAR.

Nos últimos meses o Vaticano anda dizendo que está ‘preocupado com a educação na América Latina’, ao mesmo tempo que consegue impor, através de tratados internacionais, seus dogmas e medos particulares, na educação de nossas crianças, além de desrespeitar ‘as outras religiões’, que são consideradas pelo tratado como de ‘segunda categoria’, e os outros pontos de vista filosóficos, inclusive o dos não-crentes.
A constituição e a LDB resultaram na seguinte prática: ensino católico confessional ou não, de matrícula facultativa. Isso foi constatado em um relatório preliminar da UNESCO no Brasil. O relatório faz mais denúncias: discriminação de alunos de religiões de origem africana, discriminação a outras religiões como o budismo ou aos muçulmanos. Cita casos de agressões a alunos de outras crenças e aos ateus ou pensadores livres, desvinculados de qualquer crença; fala sobre o proselitismo católico, catequese mesmo, que acontece; fala sobre o despreparo de professores; sobre o conteúdo exclusivamente redigido pela ICAR…

O estado laico tem que ser restaurado, sem dar privilégios a nenhuma religião em particular. A liberdade de culto e expressão deve continuar garantida, mas não financiada pelo estado e nem direcionada para uma crença que se julgue exclusiva. Quem quiser expressar sua crença particular, então que faça isso de forma particular e não se apodere de mecanismos públicos para se promover continuamente.

(1) http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2003/030331_amorimpapadb.shtml
(2) http://noticias.uol.com.br/ultnot/especial/papanobrasil/ultnot/2007/05/10/ult4563u211.jhtm
(3) http://g1.globo.com/Noticias/PapanoBrasil/0,,MUL34392-8524,00.html
(4) http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,lula-pede-ao-papa-que-fale-com-fieis-sobre-a-crise,277249,0.htm
(5) http://www.band.com.br/jornalismo/economia/conteudo.asp?ID=309737
(6) http://www.agencia.ecclesia.pt/cgi-bin/noticia.pl?id=83530
(7) http://jus.uol.com.br/revista/texto/16881/acao-popular-contra-concordata-entre-brasil-e-vaticano
(8) http://www.jusbrasil.com.br/legislacao/821465/decreto-7107-10
(9) http://www1.folha.uol.com.br/saber/778442-procuradoria-geral-da-republica-entra-com-acao-para-vetar-ensino-religioso-em-escolas-publicas.shtml
(10) http://www.jusbrasil.com.br/noticias/2315597/ensino-religioso-nas-escolas-publicas-e-questionado-em-adi
(11) http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,vaticano-cobra-de-dilma-que-preserve-acordo-bilateral-sancionado-por-lula,643766,0.htm
(12) http://www1.folha.uol.com.br/poder/862625-dilma-precisa-explicar-suas-conviccoes-diz-ministro-do-vaticano.shtml
(13) http://www.ceubrio.com.br/textos-e-artigos/36-conselho-municipal-de-educacao-emite-parecer-eliminando-ensino-religioso-nas-escolas-do-municipio

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OPINIAO: REVOLTA NO EGITO – LAICA E ISLAMICA

março 4, 2011 § Deixe um comentário

ALÉM-MAR, 01-03-2011

Revolta no Egipto: Não só política mas também espiritual e islâmica

Por: SAMIR KHALIL SAMIR, Asianews

Intelectuais e teólogos traçam as perspectivas para uma mudança também do Islão:
valor da mulher e mistura entre sexos, recusa do salafismo integralista, procura
de uma religiosidade do coração e da liberdade, contra o formalismo do véu, da
barba e das práticas rituais externas. E sobretudo dão as boas-vindas à
laicidade, à separação do Islão da política.

O documento sobre a renovação do Islão difundido pela revista egípcia O Sétimo
Dia («Imã e intelectuais egípcios: Renovar o Islão em direcção à modernidade»)
está a suscitar muito interesse na Internet. Num só dia ele foi espalhado por
pelo menos 12 400 sítios árabes. Cada um destes sítios teve numerosos
comentários por parte do público. O documento foi redigido pela revista com base
nas respostas recebidas de mais de 23 personagens entrevistadas. A importância
do documento permanece antes de mais porque os temas foram indicados pelos 23
peritos e depois porque a tentativa da revista é lançar um interessante projecto
de reforma do discurso islâmico.
Um outro aspecto interessante é que este projecto de reforma do Islão foi
publicado a 24 de Janeiro, um dia antes da explosão das manifestações no Egipto,
que levaram à queda de Mubarak. Tais manifestações têm motivos económicos e
políticos. Isso significa que além da corrente política, há uma corrente
intelectual que está farta do Islão difundido nos últimos 30 anos no país, um
Islão «exteriorizado», que põe a tónica nas coisas exteriores (o vestir, a
barba, o véu…). Isto mostra que no Egipto há um movimento global – ao mesmo
tempo que espiritual e político – que gostaria de transformar o país. E uma vez
que ele é um país líder em todo o Médio Oriente, pode pensar-se que as
transformações que se projectam no Cairo se difundam em toda a região. As
próprias manifestações, que entretanto aconteceram nas ruas da capital, poderão
ter influência também sobre este Islão «exteriorizado».

Mistura entre sexos

O documento analisa 22 questões relevantes para o Islão hoje. Há por exemplo a
questão 3 que fala da mistura entre sexos. O seu comentário diz que os ulemás
deveriam ter em conta as circunstâncias em que isso acontece e conciliá-lo com a
Charia. Se a mistura entre sexos se prende com questões de necessidade, então
não há problema. Citam um exemplo: na universidade há estudantes do sexo
masculino e feminino. Sendo esta uma necessidade do estudo, não há problema que
os estudantes do sexo masculino e feminino se misturem. O mesmo se diga no
tocante ao trabalho. Ao contrário, os intransigentes recusam qualquer mistura.
Na Arábia Saudita, os estudantes universitários do sexo masculino estão perante
o professor; as raparigas estão noutra sala, com uma televisão por cabo.
As declarações reformistas sublinham que, contudo, o Islão não proíbe a relação
entre homem e mulher. Tal relação no Egipto estava a tornar-se um problema
porque o estilo «puritano» se difundiu cada vez mais. Provocou muita celeuma, há
tempos, a fatwa de um doutor de direito corânico (faqih). Uma mulher, num
programa de televisão, explicava que por exigências de trabalho tinha de estar
no mesmo escritório com um homem. Mas isso era proibido pela Charia; a mulher
não podia despedir-se e pediu ajuda. O ulemá ofereceu a solução: a mulher teria
de «ter amamentado» o seu colega. Perante o escândalo suscitado entre o público
ali presente, o ulemá explicou que desse modo o colega se teria tornado «como
que um filho» para a rapariga e assim poderiam estar juntos no escritório, sem
possíveis relações sexuais (dado o novo «parentesco»). Face ao espanto das
pessoas, o ulemá defendeu-se dizendo que «é preciso julgar não com o coração,
mas com o direito». Esta fatwa suscitou muitíssimas reacções no mundo islâmico,
a ponto de o ulemá ter corrido o risco de perder o trabalho.

A jihad

O sexto ponto trata da jihad, a guerra santa. Segundo os reformadores, a jihad
no Islão é dirigida contra os ocupantes nos países muçulmanos: «Matai no caminho
de Deus aqueles que combatem contra vós, mas não tomeis a iniciativa da
agressão» (Alcorão 2, 190). Nos comentários a este versículo, precisa-se que é
proibido matar gente desarmada, crianças, velhos, mulheres, sacerdotes,
religiosos, e destruir casas de oração. E acrescentam: tal visão – tão moderna –
está presente no Islão desde há 1400 anos.
Na análise destes reformistas, a jihad só pode ser defensiva e só em terra
muçulmana. O problema põe-se quando os muçulmanos fazem jihad nos tempos e
lugares errados (entende-se obviamente que é errado agredir a gente na Europa,
por exemplo, que não é «terra islâmica»).
Quando fazê-la, quem pode fazê-la, onde se pode fazer: a resposta a estas
perguntas torna a jihad correcta do ponto de vista islâmico. Deste modo, os
reformistas condenam todo o terrorismo islâmico, os ataques à igreja de
Alexandria e de Bagdad. Deve ser dito que esta interpretação da jihad é
clássica, mas infelizmente há interpretações muito contrárias, que justificam o
terrorismo.

A religião exterior

O ponto 7 explica a necessidade de «bloquear as agressões sobre a religiosidade
exterior e os usos estrangeiros que nos chegam dos Estados vizinhos». Quem
combate este Islão exteriorizado, diz que este é um fenómeno novo, com apenas 30
anos. Isso deve-se ao facto de muitos egípcios terem ido trabalhar para a
península Arábica e terem regressado com usos não locais. A revista explica que
também o Egipto tem os seus costumes e modos de vestir para alguns cargos no
Islão. Mas – diz-se – «nos últimos tempos começámos a imitar no vestir as nações
vizinhas [na prática, a Arábia Saudita – ndr] com barba até ao peito, a túnica
longa (jilaba), o véu… Depois chegou-se à obrigação para as mulheres de usar o
niqab, o véu integral como expressão de modéstia». E citam o Alcorão 24, 30:
«Diz aos crentes para baixar o seu olhar e ser castos.»
O documento afirma que «o importante é a modéstia do olhar». Recorde-se que no
último ano houve milhares de agressões contra mulheres que não vestiam à maneira
islâmica. «O exterior – explicam os peritos reformadores – tornou-se hoje a
religião. O modelo do crente tornou-se no Egipto a aparência da religiosidade,
sem ir à procura da pureza do coração e da castidade do olhar, que o niqab não
pode esconder.»
Estes sublinhados são fundamentais e muito próximos do Evangelho. É um novo
alento místico que adverte: não conseguireis salvar a pureza da relação entre
homens e mulheres somente com o uso de vestes.
E acrescentam: esta gente – que trouxe modos de vestir do estrangeiro – dividiu
as famílias, põem uns contra os outros, porque os homens querem impor o véu e as
raparigas recusam-no. «Tornámo-nos», conclui o documento, «uma nação que se
preocupa com o exterior e tem o vazio no interior.»

Religião e Estado

O ponto 8 penso que seja o mais importante e trata da separação entre religião e
Estado. O documento usa a palavra «almaniyyah», laicidade. No Sínodo sobre o
Médio Oriente, tivemos receio de usar esta palavra porque ela é comummente
entendida como «ateísmo», indicando assim somente uma laicidade inimiga da
religião e por isso de rejeitar. Ao contrário, o documento usa precisamente esta
palavra. E explica que ela é baseada na ideia da separação entre religião e
Estado. A laicidade – dizem eles – não deve ser considerada como o oposto da
religião, mas é preciso ver nela uma salvaguarda contra o uso político ou
comercial da religião. «Neste contexto», afirma-se, «a laicidade está em
sintonia com o Islão e por isso a laicidade é juridicamente aceitável. O mesmo
se diga sobre o controlo das actividades [islâmicas] do Estado.»
A laicidade ateia, pelo contrário, vê a religião como uma amarra e por isso
pretende a liberdade absoluta. Esta laicidade é oposta ao Islão, que põe certos
limites. Quem quer escolher a fé deve fazê-lo por convicção e portanto aceitar
as normas da religião, e não pode brincar com elas. Diz-se, portanto, que há uma
laicidade extremista e uma boa. Na Internet, este ponto sobre a laicidade atrai
muitas críticas. Por exemplo, o sítio «Os guardiães do dogma» publica uma
crítica. «Todos devem saber que a laicidade significa não religiosidade, e que a
não religiosidade é a via rápida que conduz ao ateísmo. O Islão deve combatê-la
porque na laicidade há uma semente de todos os males, etc.»
Este ponto, embora muito debatido, mostra que no Egipto está a nascer o conceito
de sociedade civil, não imediatamente coincidente com a comunidade islâmica.

Atitude perante o salafismo

Também o ponto 9 é interessante. Ele pede para «purificar o património dos
“primeiros séculos do Islão” (salafismo), eliminando os mitos (khurâfât) e as
agressões contra a religião». O documento afirma que «liberdade, igualdade,
conhecimento, justiça e ciência são os valores mais importantes que o Alcorão
trouxe até nós quando foi revelado há 14 séculos. Eles são valores claros sobre
os quais não há contraste. Não é permitido minimizar estes valores. Nós temos
uma grande necessidade destes grandes valores, mais ainda do que no passado». E
acrescenta: «Os países não se desenvolvem senão com base nestes valores e não
terão qualquer renascimento (nahda) senão com a abolição do património salafita,
que deve ser considerado um freio sobre a comunidade islâmica, com aquilo que
ele comporta de mitos ou invenções de conserto, ou agressões da religião.»
Estas afirmações encaram frontalmente as práticas do integralismo sufocante (o
vestir, o puro e o impuro, as leis, etc.). Para um salafita, por exemplo, é
proibido sentar-se numa cadeira porque o profeta sentava-se no chão; não se
devem usar palitos comuns, mas devem palitar-se os dentes com um pauzinho tirado
de uma planta da Arábia Saudita (miswak)! Com estas críticas, o documento tende
a reformar o Islão, impelindo-o para um salto religioso mais espiritual.

Reflexão final

A julgar pelos comentários encontrados na Internet, vê-se que a maioria,
contrária ao documento, é presa do Islão exterior, tradicional, formal,
farisaico. Mas há muitos intelectuais e religiosos que pensam de modo moderno;
estes, porém, não têm o apoio das instituições.
Diante das revoltas sociais e dos impulsos à mudança que estão a acontecer em
vários países do Médio Oriente e da África do Norte, é preciso dizer que o
salafismo de algum modo é uma espécie de «ópio do povo»; ele focaliza a atenção
das pessoas sobre práticas religiosas exteriores e secundárias, sem se preocupar
com a sociedade, o desenvolvimento, o bem-estar. Por sua vez, os poderes
políticos deixam fazer, contanto que eles não se metam na política.
No Egipto, o poder político não é uma ditadura pura, mas para poder continuar
fez concessões cada vez maiores ao salafismo. O poder político mostra-se
«islâmico» de forma a não cair na crítica do salafismo, ou da Irmandade
Muçulmana. Mas cada concessão reforçou este Islão exterior e conduziu a novas
concessões.

Exigência de Liberdade

Os bispos dos países do Magrebe, no Norte de África, reconhecem que os
acontecimentos que se estão a desenrolar na Tunísia, no Egipto e na Líbia
manifestam uma «exigência de liberdade e dignidade por parte das populações,
especialmente por parte das gerações jovens, que se traduz na vontade de serem
reconhecidos como cidadãos livres e responsáveis».
A afirmação foi feita pelos bispos da Conferência Episcopal do Norte de África
(CERNA, que agrupa os bispos da Tunísia, da Argélia, de Marrocos, da Líbia e do
Sara Ocidental), que se reuniram na Argélia de 29 de Janeiro a 2 de Fevereiro.
Alinhando com a mensagem do papa Bento XVI para o Dia Mundial da Paz de 2011, os
bispos defendem a liberdade religiosa como caminho para a paz e dizem que «a
liberdade religiosa é a garantia do respeito completo e recíproco entre as
pessoas e que se deve traduzir, antes de mais, na liberdade de consciência
reconhecida a todos».
Além de defenderem a situação dos emigrantes clandestinos que dos países do
Norte de África procuram chegar à Europa, os bispos reafirmaram que a Igreja no
Norte de África está, sem distinções, ao serviço de cristãos e muçulmanos, das
suas aspirações de maior dignidade e melhores condições de vida.
Na conclusão dos seus trabalhos, os bispos sublinharam ainda «as relações de
amizade tecidas com os muçulmanos» e defenderam «a prossecução do diálogo
inter-religioso» e da «colaboração com a sociedade civil». As manifestações
populares da Tunísia e do Egipto juntaram nas ruas tanto muçulmanos como
cristãos, que com uma mesma voz se levantaram contra a pobreza, a corrupção e o
aumento do custo de vida. [i]

http://www.alem-mar.org/cgi-bin/buildprint.pl?EkAAEVEVFEJahUyzNN

ENSINO RELIGIOSO EM SALA DE AULA TEM ABORDAGEM CONFUSA

março 3, 2011 § Deixe um comentário

DIÁRIO DO SUL, 08-02-2011

NA SALA DE AULA, ENSINO RELIGIOSO TEM ABORDAGEM CONFUSA

No muito comentado – e talvez pouco lido – capítulo que dedica à ideia do “homem
cordial” em Raízes do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda sublinha a enorme
dificuldade cultural dos brasileiros em não transpor para o mundo público as
formas de relação familiar, nas quais prevalecem os laços de afeto e de sangue.
O mote que dá ao país a característica de lugar em que se trata a coisa pública
como se fosse privada virou, de lá para cá, lugar-comum. Porém, mais do que
tornar indistintas as fronteiras entre o que é de ordem pública e o que é de
ordem privada, há temas em que a transposição dessa cordialidade familiar para o
Estado se expressa como estratégia de evitar confrontos francos e definições
claras. Um desses temas, presente ao longo de boa parte da história brasileira,
é o da presença do ensino religioso na educação pública. E a expressão das
tentativas de acomodação que buscam agradar a gregos e troianos – ou, no caso, a
cristãos e republicanos – é a Constituição Federal de 1988: dá margem à
interpretação de que afirma a laicidade do Estado, ao mesmo tempo que assegura
que o ensino religioso constituirá disciplina facultativa nas escolas públicas
de ensino fundamental.

Com o vácuo proporcionado pelo texto constitucional e pela LDB (que joga a
questão para estados e municípios), o ensino religioso está, mais do que nunca,
presente nas escolas. E como não há consenso público do que ele deva ser, se
materializa como expressão dos valores e interesses de grupamentos, normalmente
daqueles com maior poder de barganha política, ou mesmo de indivíduos que, à
falta de direcionamento institucional, professam suas próprias crenças. Na maior
parte dos casos, desconsiderando a fé alheia.

Neste mês de fevereiro, um grupo de pesquisadores de instituições públicas
superiores encaminhará ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e
Tecnológico (CNPq) o resultado da pesquisa Ensino religioso em escolas públicas
em sistemas municipais de ensino no Brasil: ameaças ao Estado laico e aos
direitos sexuais e reprodutivos, trabalho que visa ampliar o entendimento desse
cenário. Por dois anos, desde 2008, foi avaliado o conteúdo do ensino religioso
em escolas municipais das cinco regiões brasileiras. Em resumo, a conclusão do
grupo retrata a falta de acompanhamento do Ministério da Educação (MEC) sobre o
tema. Na prática, cada escola analisada ministra o ensino religioso da forma que
lhe parece mais conveniente – ou ao sistema a que está subordinada. E, ao
fazê-lo, não incorrem em nenhum desvio legal ou descumprimento das prerrogativas
do ensino no país.

Do ponto de vista educacional, o que se coloca em discussão é: Qual é o conteúdo
repassado aos alunos? Quais materiais didáticos são utilizados? E quem são esses
professores? Teriam eles formação específica para ministrar as aulas? Sobretudo,
as escolas respeitam o princípio da liberdade de consciência e de crença?
Praticam ou não o proselitismo religioso?

Roseli Fischmann, organizadora de pesquisa e professora da Faculdade de Educação
da Universidade de São Paulo (Feusp), pontua: “Dentro do proposto, há hoje uma
grande confusão. É importante que haja respeito à diversidade de consciência,
crença e culto, respeito às minorias. Que as crianças sejam respeitadas!”.

A ideia da pesquisa surgiu como resultado de trabalhos desenvolvidos
anteriormente pela pesquisadora. “Queria ver como o ensino religioso era
implementado nas escolas das cinco regiões brasileiras.” Mas um levantamento
completo é de difícil execução, face à extensão do país. São 5.565 municípios no
Brasil e aproximadamente 200 mil escolas de Educação Básica, das quais 83 mil
rurais. “Seria inviável, como pesquisa. Teria de ser uma decisão do governo, de
avaliação ampla.” Por isso, o resultado final do trabalho é uma amostragem. “Não
tem pretensão de universalizar. O resultado é formado por estudos de casos
comparativos”, explica.

Ao observar alguns dos resultados identificados em um dos municípios
pesquisados, Petrópolis (RJ), a situação “confusa” da prática desse ensino fica
evidenciada. Das 135 escolas municipais da cidade, 29 mantêm convênio com a
Mitra Diocesana. O material adotado para o ensino religioso nessas escolas é
indicado por esse braço da Arquidiocese da Igreja Católica. Símbolos católicos,
como imagens de santos, de Jesus Cristo, oração do pai-nosso são facilmente
encontrados em salas da diretoria dos colégios e em áreas comuns aos alunos. Há,
portanto, a adoção dos valores de uma única religião em espaço público – a
escola – com confinamento da expressão de outras crenças.

Para Roseli Fischmann, num Estado republicano, a escola pública tem um papel
claro, o de formar a consciência crítica. “É o símbolo do que a sociedade é
naquele momento da história.” Em se tratando do ensino religioso, no âmbito
escolar público, Roseli destaca a limitação possível que pode marcar um sistema
doutrinário, mesmo sendo chamado multirreligioso. E por quê? Por uma questão de
como isso se dá na prática. Mas, de forma geral, a professora é otimista. “Temos
capacidade e possibilidade histórica de avançar nesse assunto, desde que fique
muito claro o beneficio que é possibilitar que a escola pública tenha
liberdade.”

Como o disposto no artigo 19 da Constituição Federal, que veda à União, aos
estados e municípios que estabeleçam ou subvencionem cultos e igrejas, ou
mantenham com eles alianças ou relações de dependência, dá margem à
interpretação de que o Estado brasileiro é laico (apesar de esta afirmação não
aparecer de forma categórica em todo o texto), a questão chegou ao Supremo
Tribunal Federal.

À espera de uma decisão da posição da Justiça
Tramitam em última instância no Poder Judiciário duas Ações Diretas de
Inconstitucionalidade (ADIs). A primeira (ADI 3.268) foi apresentada em 2004
pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), e pede liminar
para suspender os efeitos de dispositivos de Lei do Estado do Rio de Janeiro,
que institui o ensino religioso nas escolas integrantes da rede pública.

A entidade alega na ação, entre outros motivos, o desrespeito à Constituição
gerado pelos artigos 1o, 2o e 3o da Lei Estadual 3.450/00, que preveem “(…)
que o ensino religioso, de matrícula facultativa, só poderá ser ministrado nas
escolas oficiais por professores credenciados pela autoridade religiosa
competente. Estabelecem, ainda, que o conteúdo do ensino religioso é atribuição
específica das autoridades religiosas, cabendo ao Estado o dever de apoiá-lo
integralmente (…)”.

A segunda ADI (4.439), impetrada em agosto de 2010, foi solicitada pela
vice-procuradora-geral da República, Deborah Duprat. Ela requer a interpretação
conforme a Constituição do artigo 33, parágrafos 1o e 2o da Lei de Diretrizes e
Bases, para assentar que o ensino religioso em escolas públicas deve ser de
natureza não confessional. As duas ADIs não têm data para serem julgadas. Ambas
estão em fase de análise pelo Supremo. Estão, respectivamente, sob a relatoria
dos ministros Celso de Mello e Ayres Britto.

“Sempre me incomodou a maneira como o princípio do Estado laico é tratado no
Brasil, no campo da educação. Há uma violação”, avalia Daniel Sarmento,
procurador da República da 2ª Região do Rio de Janeiro. Foi uma representação
dele, à vice-procuradora-geral da República, o motivo da ADI levada a cabo ano
passado.

Sarmento esclarece, contudo, não ter tido motivação pessoal para a
representação. “Há uma violação séria a um princípio constitucional. Por isso,
dei o encaminhamento mais apropriado.” Ou seja, ele pede a avaliação jurídica da
laicidade praticada nas escolas públicas.

A importância do julgamento dessas ADIs pelo STF é o fato de que todas as
instâncias responsáveis pelo sistema educacional no país terão de seguir a
decisão tomada pelo Tribunal. Esse julgamento também é inédito, por ser a
primeira vez que a questão da laicidade do Estado chega à última instância do
Judiciário brasileiro para ser avaliada nos atuais modelos de gestão pública, em
termos de práticas da educação. Ou seja, é a hora em que o nebuloso pode ser
tornar claro.

“O princípio do Estado laico impõe neutralidade em matéria religiosa. Que
mantenha equidistância em relação a todas as concepções religiosas. Enfim, que
não se faça a catequese de uma determinada religião”, resume. Pela linha de
raciocínio de Sarmento, tal afirmação ganha mais força ao pensar no campo
educacional como espaço para formação da capacidade crítica das pessoas. “Isso
me parece incompatível com o doutrinamento religioso.”

Para o procurador, a Constituição deve ser cumprida. “Estado laico é um
mecanismo muito importante de garantia de igualdade das pessoas. Evita
tratamento diferenciado, pelo Estado, aos seguidores de quaisquer que sejam as
confissões religiosas.” Quando o Estado endossa uma determinada religião,
discrimina todas as pessoas, seguidores ou não, de denominações religiosas
distintas da oficial.

Vezo longínquo
Práticas de discriminação religiosa foram frequentes ao longo da história
republicana brasileira. O coordenador do programa de pós-graduação em educação
da Universidade Federal do Paraná (UFPR), especialista em relações
étnico-raciais, Paulo Vinícius Baptista, lembra a década de 70. Em 1976, o
governo da Bahia lançou uma lei proibindo a polícia de entrar nos terreiros das
religiões afro-brasileiras. Até então, era comum, na Bahia, a polícia invadir
cultos religiosos de candomblé e umbanda para prender quem lá estivesse. “O
tratamento era cadeia. A prática da religião era considerada anômala ou
equivocada pela norma social hegemônica.”

Especificamente no campo da educação, Baptista enumera uma série de denúncias de
intolerância contra as religiões de matrizes africanas, feitas no Paraná, quando
essas denominações religiosas são mostradas em termos de valores e não de
dogmas. “Há reclamações de pais orientados por uma perspectiva etnocêntrica e de
intolerân cia religiosa.”

Um dos casos relatados aconteceu com uma de suas orientandas, professora de
séries iniciais na rede municipal, em Curitiba, no final de 2009. “Os pais foram
questionar as aulas da professora com a pedagoga da escola, que chamou a docente
para uma conversa e a proibiu de trabalhar com aqueles conteúdos.” A professora
não acatou a deliberação e continuou a mencionar exemplos de diversas religiões
em suas aulas. O material didático utilizado também era diversificado. “Ela
sequer era religiosa”, acrescenta. Para resolver o impasse, Baptista serviu como
moderador. “Reuni-me com a pedagoga para mostrar que o que ela estava
trabalhando não era a religião. Assim ela pôde continuar sem interferência.”

A discriminação contra estudantes das religiões de matriz africana nas escolas
públicas é tão relevante que integrantes da Relatoria do Direito Humano à
Educação (instância ligada à Unesco) constituíram uma missão para investigar a
situação. Batizada de “Educação e Racismo no Brasil”, a missão percorreu
diversos estados brasileiros em maio do ano passado para averiguar questões
relacionadas a intolerância religiosa e racismo.

Algumas das denúncias recebidas pela Relatoria registraram agressões físicas
(socos e apedrejamento); demissão ou afastamento de profissionais de educação
adeptos de religiões de matriz africana ou que abordaram seus conteúdos em
classe; proibição de uso de livros e do ensino da ca poeira em espaço escolar;
desigualdade no acesso a dependências escolares por parte de lideranças
religiosas, em prejuízo das vinculadas à matriz africana; omissão diante da
discriminação ou abuso de atribuições por parte de professores e diretores.

Para modificar esse cenário, entidades do movimento negro planejam para este ano
organizar a Conferência Nacional pela Liberdade Religiosa, como meio de
sensibilizar a sociedade brasileira para um tratamento mais adequado às
religiões afro-brasileiras.

Um dos pontos de vista defendidos por acadêmicos para uma conscientização mais
ampla do ensino religioso reside na formação dos professores. “A sociologia da
religião e a história da religião deveriam estar mais presentes [nas
licenciaturas]”, defende Baptista. Para ele, isso ajudaria, inclusive, a
diminuir a prática de “tanta formação continuada aos professores nesse tema”.

Especialista em ensino religioso e educação da Faculdade EST e da Universidade
Unisinos, ambas confessionais, no Rio Grande do Sul, Remí Klein aponta a
“distância” entre a proposta do ensino religioso abordada em sala de aula para
os formandos em licenciatura e a prática após o curso. Os eixos organizadores do
ensino religioso, diz ele, estão todos no plural, culturas e tradições
religiosas, textos sagrados, teologias. “O problema é que quando a turma vai
para a sala de aula, vai falar de Bíblia. Ou falar de histórias bíblicas.” Em
outras palavras, falta o reconhecimento de outras literaturas também
consideradas sagradas por diversas religiões. “A Bíblia continua como texto
sagrado, mas não é mais “o” texto sagrado. É um texto sagrado, mesmo que ela
seja o meu texto sagrado.”

Klein defende a integração da legislação, material didático, propostas
curriculares e formação de professores, como tentativa de resolução da questão.
“Às vezes, se tem um bom material didático e embasamento legal, mas o professor
não tem formação. Esse tripé: amparo legal, proposta curricular e formação
docente tem de ser integrado.”

Defensor do ensino religioso nas escolas, mesmo as públicas, Klein ressalta que
ele deve ser pensado a partir da escola, não da teologia. Tem de ser ministrado
como ciência das religiões. “Não tenho nada contra a catequese, mas a escola é
um espaço de aprendizagem, das diversidades culturais e religiosas. É o
exercício do respeito da convivência.” Por isso, os alunos desinteressados em
participar das aulas devem ser respeitados, defende.

Maioria cristã
Pelos últimos dados oficiais do IBGE sobre a distribuição percentual dos
brasileiros por religião, o maior grupo é formado por cristãos: católicos
apostólicos romanos (73,57%) e evangélicos (15,41%). Espíritas representam
1,33%. A umbanda e o candomblé têm como seguidores declarados 0,23% e 0,08%,
respectivamente. Os autodeclarados “sem religião” somam 7,35% do total da
população. Já as religiões de tradições indígenas possuem 0,01% de adeptos
oficiais. Essas estatísticas são de 2000. A divulgação com dados mais recentes,
do Censo 2010, está prevista para 2012.

Na questão de números e representatividade, Daniel Sottomaior, ateu e presidente
da Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (Atea), diz não haver precisão de
dados oficiais sobre a população de agnósticos e ateus no país. “O IBGE se nega
a dar o número.” Pelo levantamento do Instituto, de fato, não há discriminação
entre essas vertentes. O número é absoluto e se refere aos sem religião. Por sua
vez, o IBGE informa que não se recusa a repassar nenhum dos dados de seus
levantamentos a qualquer entidade solicitante.

No tangente ao ensino religioso nas escolas públicas, Sottomaior é taxativo. “A
Constituição é inconstitucional. Não há como enquadrar o artigo sobre o ensino
religioso, ainda que facultativo, com a laicidade do Estado. É uma coisa ou
outra.”

Ele não percebe a curto ou médio prazo perspectiva de mudanças nas práticas
disseminadas pelas escolas no país. “Não é impossível, mas é bem pouco provável.
O Congresso acabou de aprovar uma Concordata com um artigo sobre ensino
religioso muito claro e mais aviltante. Passou como faca quente na manteiga.”

Ele se refere ao parágrafo 1º (e único), do artigo 11 da Concordata: “O ensino
religioso, católico e de outras confissões religiosas, de matrícula facultativa,
constitui disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino
fundamental, assegurado o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil,
em conformidade com a Constituição e as outras leis vigentes, sem qualquer forma
de discriminação”.

“A escola não é o lugar para a reflexão de religião. Sequer temos professores
preparados para lidar com essa questão.” Como exemplo, recorda a história de um
adolescente ateu, no interior de Minas Gerais, discriminado na escola pública.
Por se negar a tirar o boné, durante uma oração, foi mandado para casa. “O
menino estava isolado. Quando o procurarmos para apoiá-lo, pediu para que não
tomássemos nenhuma atitude. Tinha receio da pressão na cidade.”

A Igreja Presbiteriana do Brasil, de certa maneira, reforça os pontos de vista
defendidos por Sottomaior em manifesto contra a assinatura do acordo entre o
Brasil e a Santa Sé, divulgado em outubro de 2009. Para eles, o acordo firmado
discrimina outras religiões ao citar explicitamente a religião católica. Além de
desconsiderar, “(…) a cidadania dos ateus e agnósticos também presentes no
Brasil (…)”.

Mas nem todos os envolvidos nesse debate veem a assinatura da Concordata como
instrumento para agravar as incoerências de como o ensino religioso acontece na
prática.

Emerson Giumbelli, professor de antropologia social da Universidade Federal do
Rio Grande do Sul (UFRGS) e colaborador do Instituto de Estudos da Religião
(Iser), o modelo confessional sugerido pela Concordata não converge com a
tendência de implantação do ensino religioso feito pelos estados. “A Concordata
serve para aumentar o conhecimento público sobre esse assunto, que precisa ser
mais bem discutido. Mas isso não a torna menos lamentável.”

Para Giumbelli, a inclusão do ensino religioso na Constituição corresponde ao
resultado de lutas históricas pela presença da religião, “sobretudo a católica”,
na sociedade brasileira. Porém, ressalva, isso não significa que sua pertinência
não deva ser discutida. Nos últimos 20 anos houve um esforço para separar o
ensino religioso da catequese.

“Estou entre aqueles que pensam que se pode discutir religião nas escolas. Mas
sob qual enquadramento?”

O antropólogo coordenou no Iser, entre 2007 e 2008, o projeto Mapeamento do
ensino religioso no Brasil – Definições normativas e conteúdos curriculares.
Entres os resultados verificados nos estados avaliados pela pesquisa,
identificou-se uma mobilização de recursos para a formação de professores, a
atuação de entidades reunindo representantes de diferentes religiões como
interlocutoras para essa modalidade de ensino e a forte atuação dos Conselhos e
Secretarias Estaduais de Educação.

Formação duvidosa
Ele lembra que essas três instâncias merecem acompanhamento por parte de
pesquisadores e da sociedade em geral. “Muitos cursos – de gra duação,
especialização e pós-graduação – vêm sendo constituídos no Brasil. Até que ponto
estão dissociados dos interesses de instituições ou visões estritamente
religiosas? Estão abertos a uma visão pluralista acerca da religião?”

Outro aspecto desse debate é o aumento da presença de imigrantes com orientações
religiosas menos disseminadas no passado brasileiro. Fernando Seffner, da UFRGS,
cita a chegada agora mais frequente de chineses e islâmicos como mais um motivo
para o aumento da discussão da laicidade no ensino público. Muitas vezes, essas
pessoas colocam seus filhos no ensino público, onde eles se deparam com outros
valores religiosos, o que provoca um estranhamento. Para o pesquisador, a
inclusão da diversidade na escola tornará difícil a manutenção do proselitismo
religioso. “No futuro, vamos ter mais gente na luta pela laicidade. Hoje em dia
muita gente não se interessa.”

Seffner dedica seus estudos às questões da educação e relações de gênero.
Atualmente, um de seus interesses centrais em pesquisa é a consequência do
ensino religioso em relação aos temas da diversidade sexual, da saúde sexual e
reprodutiva. A partir de sua experiência, crê que a escola é muito moralizante,
com ênfase no ensino de comportamento. A mudança acontece no ensino médio,
quando a escola torna-se mais científica. Daí a questão de o ensino religioso
encontrar maior resistência entre adolescentes. “A gente se depara com coisas
abusivas ao pesquisar esse assunto.”

Seffner enfatiza a relevância para a democracia de se debater o ensino religioso
e sua prática nas redes públicas de ensino. “Os afros quase não se manifestam.
Espíritas quase não têm expressão. As várias práticas do catolicismo e seus
símbolos passam como valores universais, quando não são.”

Essa naturalização da adoção dos valores de um grupo como se fossem
legitimamente constituídos por toda a sociedade talvez decorra justamente da
ausência de separação entre o homem familiar e o homem público, o cidadão.
Afinal, como ressalta Sérgio Buarque de Holanda no final do capítulo sobre o
homem cordial, a falta de coesão e disciplina que marca a vida íntima do
brasileiro, sempre afeito às relações sentimentais, torna-o livre “para se
abandonar a todo repertório de ideias, gestos e formas que encontre em seu
caminho, assimilando-os frequentemente sem maiores dificuldades”. Ironia do
destino, o historiador citava veredictos diversos que apontavam essas
características como inibidoras das possibilidades de instituição de reli giões
professadas por meio de “formas mais rigoristas de culto”. Os rigores foram e
continuam sendo amenizados nos enlaces mais diversos com o Estado brasileiro.
Resta perguntar em prol do quê e de quem. [i]

http://www.diariodosul.com.br/?pag=noticias&cod=1443

EDITORIAL DE JORNAL OPINA RETIRADA DE ENSINO RELIGIOSO

março 3, 2011 § Deixe um comentário

AGORA, 01-03-2011

AULAS DE RELIGIÃO

Metade das escolas públicas e privadas do Brasil oferece ensino religioso. São
quase 100 mil estabelecimentos, onde estudam milhões de crianças.

A religião é parte importante da vida da maioria das pessoas. Segundo o
Datafolha, 61% dos brasileiros são católicos e 25% são evangélicos, além dos que
seguem outras religiões ou não acreditam em Deus.

Mas a escola não é o melhor lugar para ensinar religião. Para isso existem as
igrejas e lugares de culto, aonde os pais podem levar seus filhos sempre que
quiserem.

O ensino religioso no colégio é complicado. Se o aluno for de família budista,
por exemplo, é incorreto obrigá-lo a repetir que Jesus Cristo é o filho de Deus.

A lei, porém, permite o ensino de religião nas escolas. Apesar de a Constituição
deixar muito clara a separação entre Estado e igreja no Brasil, a lei maior do
país admite o ensino religioso –mas não de forma obrigatória, nem para
converter ninguém.

O ideal, então, é que as aulas ensinem só a história das religiões. Entender a
trajetória do cristianismo, do judaísmo, do islamismo e de outras religiões
ajuda a compreender o mundo de hoje. Várias guerras foram travadas em nome de um
Deus, e muitas ainda serão.

O ideal seria mudar a Constituição e tirar dela essa história de ensino
religioso. Cada um deve ensinar a seu filho a fé que bem entender, sem
interferência do governo. Na escola, os alunos deviam focar a sua atenção em
português, matemática e outras disciplinas, nas quais o desempenho do Brasil já
é péssimo. [i]

http://www.agora.uol.com.br/editorial/ult10112u882473.shtml

ANALISTAS INSISTEM EM CULPAR OS ISLAMICOS RADICAIS

março 1, 2011 § Deixe um comentário

PLANETA OSASCO, 28-02-2011

ANALISTAS INSISTEM EM CULPAR OS ISLÂMICOS RADICAIS

São revoltas seculares. Por que só se fala das religiões?
Por Robert Fisk (do Bahrain)

Por que tantos intérpretes cultos, embora impressionantemente antidemocráticos, insistem em interpretar tão mal as revoltas árabes?

Mubarak alegou que os islamistas estariam por trás da Revolução Egípcia. Ben Ali disse o mesmo, na Tunísia. O rei Abdullah da Jordânia vê uma sinistra mão escura – da al-Qa’ida, da Fraternidade Muçulmana, sempre mão islâmica – por trás da insurreição civil em todo o mundo árabe. Ontem, autoridades do Bahrain descobriram a amaldiçoada mão do Hizbollah, ali, por trás do levante xiita. Onde se lê Hizbollah, leia-se Irã.

Por que, diabos, tantos intérpretes cultos, embora impressionantemente antidemocráticos, insistem em interpretar tão mal as revoltas árabes? Confrontados por uma série de explosões seculares – o caso do Bahrain não cabe perfeitamente nessa classificação – todos culpam os islâmicos radicais. O Xá cometeu o mesmo erro, só que ao contrário: confrontado com um óbvio levante islâmico, pôs a culpa nos comunistas.

Os infantilóides Obama e Clinton acharam explicação ainda mais esdrúxula. Depois de muito terem apoiado as ditaduras “estáveis” do Oriente Médio – quando tinham a obrigação de defender as forças democráticas –, resolveram apoiar os clamores por democracia no mundo árabe, justamente quando os árabes já estão tão absolutamente desencantados com a hipocrisia dos ocidentais, que não querem os EUA ao lado deles. “Os EUA interferem em nosso país há 30 anos, apoiando o governo de Mubarak, armando os soldados de Mubarak” – disse-me um estudante egípcio na praça Tahrir, semana passada. “Agora, agradeceríamos muito se parassem de interferir, mesmo que a nosso favor.” No final da semana, ouvi vozes idênticas no Bahrain. “Estamos sendo assassinados por armas dos EUA, disparadas por soldados bahrainis treinados nos EUA, em tanques fabricados nos EUA” – disse-me um médico na 6ª-feira. “E Obama, agora, quer aparecer como nosso aliado?”

Os eventos dos últimos meses e o espírito antirregime da insurreição árabe – que clama por dignidade e justiça, não por algum emirado islâmico – ficarão nos nossos livros de histórias por séculos e séculos. E o fracasso dos islamistas mais obcecados será discutido por décadas. Havia especial ardor na gravação da al-Qa’ida divulgada ontem e gravada antes da queda de Mubarak, que falava da necessidade de o Islã triunfar no Egito. E uma semana antes, homens e mulheres, seculares, nacionalistas, egípcios, muçulmanos e cristãos, pela própria força e meios, haviam-se livrado do velho ditador, sem qualquer ajuda de Bin Laden Inc.

Ainda mais esquisita foi a reação do Irã, cujo supremo líder convenceu-se de que o sucesso do povo egípcio fora sucesso do Islã. Só a al-Qa’ida, o Irã e seus mais odiados inimigos – os ditadores anti-islamistas – ainda creem que a religião esteja por trás da rebelião das massas democráticas no Oriente Médio.

A mais terrível ironia de todas – de que só muito lentamente Obama deu-se conta – é que a República Islâmica do Irã elogiava os democratas do Egito, ao mesmo tempo em que ameaçava executar seus próprios opositores.

Não foi, como se viu, uma grande semana para o “islamicismo” [orig. “Islamicism”]. Há detalhes a considerar, é claro. Quase todos os milhões de manifestantes árabes que querem quebrar o pescoço da autocracia que – com importante colaboração ocidental – sufoca a vida deles com humilhações e medo, são, sim, muçulmanos. E os muçulmanos – diferentes do ocidente ‘cristão’ – não perderam a fé.

Contra os tanques e chicotes e porretes dos assassinos da polícia de Mubarak, eles lutavam a pedradas, gritando “Allah akbar”, e aquela luta era, sim, para eles, uma “jihad” – palavra que não significa “guerra religiosa”, mas significa “lutar pela justiça”. Gritar “Deus é grande” e lutar por justiça são movimentos absolutamente lógico-consistentes e esse é o próprio espírito profundo do Corão.

No Bahrain temos caso especial. Aqui, a maioria xiita é governada por uma minoria de muçulmanos sunitas pró-monarquia. A Síria, aliás, pode ser contaminada pela “bahrainite” pela mesma razão: ali também uma maioria sunita é governada por uma minoria alawita (xiita). Mas, ora essa, o ocidente pode alegar, pelo menos – no já bem pouco entusiasmado apoio que ainda oferece ao rei Hamad do Bahrain – que o Bahrain, como o Kuwait, tem um Parlamento. É pobre mostrengo velho, que existiu de 1973 a 1975, quando foi inconstitucionalmente dissolvido, e depois reinventado, em 2001, num pacote de “reformas”. Mas o novo parlamento conseguiu ser ainda menos representativo que o anterior. Os políticos da oposição foram caçados pela polícia política, e os distritos eleitorais redesenhados, ao estilo do Ulster, para garantir que a minoria sunita controlasse todo o parlamento. Em 2006 e 2010, por exemplo, o principal partido xiita no Bahrain ganhou só 18, dos 40 assentos no parlamento. Há clara semelhança com o que houve na Irlanda do Norte, nas perspectivas dos sunitas no Bahrain. Muitos me disseram que temem pela vida; que temem que soldados xiitas queimem suas casas e matem suas famílias.

Tudo isso haverá de mudar. O controle pelo Estado só é efetivo se for legítimo, e usar munição real contra manifestantes pacíficos e desarmados só sugere que as coisas podem acabar, no Bahrain, numa série de pequenos “Domingos Sangrentos”. Quando os árabes tenham aprendido a domar o medo, poderão exigir direitos civis, como os católicos na Irlanda do Norte exigiram, chegada a hora, ante a brutalidade do Royal Ulster Constabulary (RUC, polícia da Irlanda do Norte). No final, os britânicos tiveram de desconsiderar a legislação unionista e admitir que o IRA (Irish Revolucionary Army) dividisse o poder com os protestantes. Os paralelos não são exatos e os xiitas (ainda) não têm milícias, embora o governo do Bahrain tenha exibido fotografias de pistolas e espadas – para o IRA, sequer seriam consideradas armas –, para provar que haveria “terroristas” entre os manifestantes.

Há no Bahrain, sim, uma batalha sectária, ao lado de uma batalha secular, algo que até o Príncipe Coroado acertou ao reconhecer, quando disse, originalmente, que as forças de segurança tiveram de suprimir os protestos para evitar a violência sectária. É ideia que tem sido divulgada empenhadamente pela Arábia Saudita, que tem fortes interesses em suprimir qualquer agitação no Bahrain. Os xiitas da Arábia Saudita podem ver suas posições reforçadas se xiitas do Bahrain passarem a controlar o Estado. Nesse caso, sim, os líderes da República Islâmica Xiita por-se-ão, de fato, a cantar de galo.

Mas essas insurreições interconectadas não devem ser postas como fatores determinantes de tudo que aconteça no Oriente Médio. O levante no Iêmen contra o presidente Saleh (há 32 anos no poder) é democrático, mas também é tribal, e a oposição não tardará a armar-se. O Iêmen é sociedade pesadamente armada, várias tribos, cada qual com sua bandeira, nacionalismo rampante. E, depois, há a Líbia.

Gaddafi é non-sense, com suas teorias do “Livro Verde” – mas despachou os manifestantes benghazi, semana passada, quanto exibiram versão concreta desse específico volume –, extravagante, seu governo é desumano, cruel (e já dura, lá, há 42 anos). É um Ozymandias[1] antes da queda. Seu flerte com Berlusconi – ainda pior: seu caso de amor com Tony Blair, cujo secretário do Exterior, Jack Straw, chamava de “estadista” o lunático da Líbia – jamais o salvará. Mais coberto de medalhas que o general Eisenhower, em busca desesperada de um cirurgião plástico que lhe ajeite a papada, essa ruína humana ameaça agora com castigo “terrível” os líbios que o desafiem. Sobre a Líbia é preciso lembrar duas coisas: como o Iêmen, a Líbia é terra de tribos; e, quando a Líbia levantou-se contra os fascistas, deu início a uma guerra de libertação. Os bravos comandantes líbios enfrentaram o laço da forca com inacreditável coragem. Gadafi é doido. Isso não implica que os líbios sejam idiotas.

Por tudo isso, está acontecendo um maremoto político, social, cultural, no mundo do Oriente Médio. Haverá muitas tragédias, muito sangue derramado, muitas novas esperanças. O melhor a fazer é não ler, ignorar completamente todos os analistas e os “think tanks” cujos ‘especialistas’ imbecilizados dominam todos os canais de televisão. Se os checos podem ser livres, por que os egípcios não poderiam? Se se podem por abaixo ditaduras na Europa – primeiros os fascistas, depois os soviéticos – por que não se podem derrubar ditadores no grande mundo árabe muçulmano? E – só por um instante, pelo menos – deixem a religião fora da discussão. [i]

http://www.planetaosasco.com/oeste/index.php?/201102289026/Nosso-pais/analistas-insistem-em-culpar-os-islamicos-radicais.html

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