OPINIAO – FREI BETTO: DIALOGO ENTRE CIENCIA E FE

março 30, 2011 § Deixe um comentário

O DIA, 26-03-2011

FREI BETTO: DIÁLOGO ENTRE CIÊNCIA E FÉ

Rio – Fé e ciência nem sempre tiveram um bom diálogo. As primeiras respostas às
indagações do ser humano a respeito do cosmo, dos fenômenos naturais e da vida,
foram dadas pela religião. Xamãs, feiticeiros, gurus e sacerdotes faziam a
mediação entre o Céu e a Terra.

A religião é filha da fé e a ciência, da razão. Se a fé parte de verdades
reveladas que, por sua vez, exigem adesão de fé, sem comprovação experimental, a
ciência é o reino da dúvida e se apoia em pesquisas empíricas. A fé apreende a
essência das coisas; a ciência, a existência.

O diálogo entre fé e ciência iniciou-se quando, na modernidade, a razão se
emancipou da religião.

No intuito de atualizar o diálogo entre a ciência e a fé, a editora Agir
promoveu um encontro, durante três dias, entre Marcelo e eu, que resultou no
livro “Conversa sobre a fé e a ciência”, já nas livrarias.

Gleiser leu meus livros e eu os dele, o que favoreceu o nosso diálogo, no qual
houve mais convergência que divergência, sobretudo no que se refere à correta
postura da ciência diante da fé e da fé diante da ciência.

São esferas independentes, autônomas e que, no entanto, encontram suas sínteses
em nossas vidas. Ninguém prescinde da ciência, assim como todos têm uma dimensão
de fé.

Marcelo Gleiser e eu coincidimos que a finalidade da ciência não é obter lucros,
nem a da fé impor verdades ou arrecadar fundos.

Ciência e fé servem para nos propiciar qualidade de vida, conhecimento da
natureza e sentido transcendente à existência. Se pela fé descobrimos a origem e
a finalidade do Universo e da vida e, pela ciência, como funcionam um e outro,
tudo isso pouco importa se não nos conduz ao essencial: a uma civilização na
qual o amor seja também uma exigência política.

Frei Betto é escritor, autor de “O amor fecunda o Universo – ecologia e
espiritualidade”, coautoria com Marcelo Barros

[i]

http://odia.terra.com.br/portal/opiniao/html/2011/3/frei_betto_dialogo_entre_cie
ncia_e_fe_153557.html

[Blá blá blá…]

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CARDEAL DIZ QUE O ATEISMO NAO E PERIGOSO

março 30, 2011 § Deixe um comentário

BLOG PAULO LOPES, 28-03-2011

CARDEAL AFIRMA QUE O ATEÍSMO NÃO É PERIGOSO, MAS A INDIFERENÇA SIM

entrevista a Frédéric Mounier, do jornal francês La Croix

“Queremos dizer à sociedade contemporânea que a fé e a teologia estão entre os
grandes vetores de conhecimento e de cultura, que cada uma têm um estatuto e uma
dignidade próprios. Esse diálogo deve ocorrer no mais alto nível, sem relegar os
crentes em Deus ao paleolítico!” A opinião é do cardeal Gianfranco Ravasi,
presidente do Pontifício Conselho para a Cultura do Vaticano. Para ele, o que
preocupa a igreja não é mais o ateísmo, mas a indiferença religiosa sim, porque
é perigosa. Ele concedeu a seguinte entrevista.

Por que é necessário para a Igreja dialogar com aqueles que não acreditam?

A Igreja não se vê mais como uma ilha separada do mundo. Ela está no mundo. O
diálogo, portanto, é para ela uma questão de princípio. Porque, nas nossas
sociedades orgulhosas por serem secularizadas, constata-se, porém, que surgem
perguntas fundamentais. Testemunho disso é o interesse pelo sagrado, a New Age
ou também pelo sobrenatural e pela magia… Para responder a essa urgência, os
grandes modelos culturais e religiosos se apresentam com legitimidade.

Além disso, queremos dizer à sociedade contemporânea que a fé e a teologia estão
entre os grandes vetores de conhecimento e de cultura, que cada uma têm um
estatuto e uma dignidade próprios. Esse diálogo deve ocorrer no mais alto nível,
sem relegar os crentes em Deus ao paleolítico! Por fim, somos conscientes do
fato de que o grande desafio não é o ateísmo, mas sim a indiferença, que é muito
mais perigosa. Certamente, existe o ateísmo irônico de Michel Onfray, mas a
indiferença pode ser representada por esta piada: “Se Deus saísse hoje pelas
ruas, iriam lhe pedir seus documentos!”.

Mas o Átrio dos Gentios não é um lugar de evangelização?

Certamente não. Somos como Paulo diante do Areópago de Atenas. Dizemos aquilo
que acreditamos diante daqueles que não acreditam e que nos escutam. Embora
sejamos conscientes do fato de que todas as grandes propostas culturais e
religiosas não são só informativas, mas também “performativas”: abrem a uma
ação. Basta ler Dostoiévski, Pascal, Dante, Nietzsche…

Concretamente, o que a Igreja quer dizer aos não crentes?

Retomaria a distinção proposta pelo teólogo protestante alemão Dietrich
Bonhoeffer entre as “realidades penúltimas” e as “realidades últimas”. O
cristianismo, por natureza, é uma religião encarnada, cuja mensagem é
fundamentada em uma realidade histórica. Por essa encarnação, ele pôde agir na
sociedade, trate-se do diálogo com os políticos ou da ação pela justiça e a
solidariedade. Mas nós não constituímos só uma ONG. O nosso dever é o de um
discurso sobre as “realidades últimas”. Com isso, não entendo só Deus, a
Palavra, a transcendência, mas também – e este é o programa do Átrio dos Gentios
– os grandes problemas existenciais: a vida, o amor, a morte…

Nesses planos, a Igreja afirmar ter a Verdade. Uma afirmação pouco aceitável
nestes tempos marcados pela indiferença.

É um grande problema. Para os cristãos, de fato, a Verdade nos precede na pessoa
de Cristo, enquanto, aos olhos da cultura contemporânea, cada um de nós a
constrói. Dessa diferença derivam concepções diversas do bem e do mal, da
liberdade, da justiça. Sabemos bem que, hoje, dado que toda verdade varia de
acordo com o contexto, cada um pode elaborar sua própria verdade. No limite, uma
ação criminosa pode se dizer conforme a uma verdade. Um autor pôde dizer: “A
Verdade não vos libertará”. Ao contrário, Robert Musil afirmava: “A verdade não
é uma pedra preciosa que se leva no bolso, mas sim um mar em que se imerge para
nadar”. Nós pensamos que é urgente evocar a Verdade. Podemos nos contentar,
talvez, com uma sociedade formada só por comportamentos individuais adaptados,
na ausência de normas comuns reconhecidas? Para um cristão, a liberdade é
orientada, ordenada a um objetivo, não só no sentido do laissez-faire
contemporâneo, que se limite à liberdade do próximo.

Trata-se de unificar fé e razão?

De um lado, constamos um excesso de racionalismo, mas também vemos surgir
manifestações de irracionalidade, de sentimentalismo. Nesse contexto, é preciso
sempre retomar a necessária autonomia da fé e da razão. É preciso também lembrar
que, sendo o homem uno, fé e razão dentro dele devem dialogar.

Sobre esses temas, já não está tudo definido?

Certamente, somos uma minoria. Mas a nossa visão pode ser considerada
provocadora, como um pó de comichão ou uma pedra no sapato. Dado que a multidão
vai em uma certa direção, nós talvez também devemos segui-la?

Até se constitui em uma contracultura?

De fato, o crente é sinal de contradição. A cultura contemporânea, moldada pela
comunicação de massa, visa à homogeneização do pensamento. Qualquer pessoa que
seja uma exceção é considerado extravagante. Cabe a nós, junto com outros,
realizar um trabalho essencial e difícil: buscar o verdadeiro, o bem, reconhecer
o falso, o mal…

Sobre essas bases, quais frutos são esperados desses encontros parisienses do
Átrio dos Gentios?

Queremos jogar uma pedra no lago, estimular a reflexão e o diálogo, e depois
observar aquilo que acontece. Durante a nossa primeira sessão, na universidade
de Bolonha, ficamos surpresos. De cada quatro relatores que intervieram (um
cientista, um jurista, um filósofo, um escritor), dois eram crentes em Deus, e
dois, não. Participaram 2.000 pessoas, discutiram ouviram leituras de Nietzsche,
Pascal, Santo Agostinho. Tudo no máximo silêncio, com grande respeito recíproco
e uma atenção elevada. Depois deParis, iremos para Estocolmo, sob a égide do
luteranismo de Estado. Depois a Tiranae a Praga, importantes centros do ateísmo
de Estado.

[i]

http://www.paulopes.com.br/2011/03/cardeal-afirma-que-o-ateismo-nao-e.html?utm_s
ource=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed%3A+blogspot%2FLHEA+%28Paulope\
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OPINIAO DE ADVOGADO SOBRE ESTADO LAICO

março 19, 2011 § Deixe um comentário

DNOTO, 19-03-2011

O SANTO SÃO JOSÉ E O ESTADO LAICO BRASILEIRO

Zilmar Wolney

Após a reabertura da discussão da figura do Estado Laico, no Brasil, através da
então Ministra Dilma Rousseff, atual presidente, determinando a retirada de
símbolos religiosos dos órgãos e repartições públicas, passamos a verter o nosso
olhar sobre o dia 19 de março, apesar de toda a reverência e religiosidade pelo
nosso padroeiro São José, agora, com uma desconfiança jurídica. Pois, há um
conflito de ordem cultural e religiosa em face da Carta Magna vigente, na
perspectiva do paradigma interpretativo sobre o laicismo. Ou seja, o foco da
religiosidade seria o da ampla liberdade para os manifestos de qualquer
convicção religiosa, ou radicalização acerca desse tipo de manifesto.

Desde o boom do renascimento, no século XV, que idéias luteranas e calvinistas
romperiam, em definitivo, com o monopólio da igreja mãe, em termos de idéias e
convicções de ordem religiosa. Países, como o Brasil, conquistado por nações
católicas, ao nível de Portugal, ainda trariam as reminiscências desse monopólio
religioso, para definir, na primeira carta política, em 1824, o catolicismo como
religião oficial.

O certo é que, após isso, ao longo de suas posteriores 07 constituições, o
Brasil incorporaria a característica de País laico, ou seja, sem religião
definida. Aliás, deixou bem caracterizada tal postura, em cláusulas pétreas,
notabilizando a liberdade de crença e convicção religiosa. Além disso, coloca o
Estado na condição de protetor dos templos, liturgias e cultos religiosos,
inclusive com o dever de prestar as necessárias subvenções. Assim, assume a
roupagem de pátria de todos os povos, e de todas as crenças.

No entanto, há que se observar que os valores culturais, religiosos,
incorporados aos brasileiros, através de ações catequéticas, como a dos padres
Anchieta e Nóbrega, terminam evidenciando, felizmente, a força do lado cristão,
presente na sociedade brasileira. Por exemplo, no preâmbulo da Carta Magna de
1988, ainda se invoca a proteção de Deus. Muitos órgãos públicos ainda ostentam
imagens de santos. E, por fim, há inúmeros feriados, exaltando santos e santas,
como, à guisa de ilustração, a padroeira do Brasil. Nunca é tarde lembrar, num
país que, atualmente, está recheado de evangélicos, protestantes, espíritas e
ateus!

A partir de tais observações, a impressão que se colhe é que o País adotou uma
espécie de laicismo moreno. Pois, muito embora, queiramos a liberdade de crença
e convicção religiosa; de outro lado, nos contrapomos a qualquer manifesto, que
não se adéqüe ao contexto da nossa íntima convicção religiosa. No entanto,
esquecemos, por exemplo, que o nosso direito começa exatamente, onde termina o
do nosso próximo. E que a máxima cristã da tolerância nos ensina, ao longo dos
séculos, para termos paciência, aceitando as pessoas como elas são, e sabedoria
para modificá-las, apenas, naquilo que for possível.

Não se pode ignorar a evolução histórica brasileira entremeada de crença cristã,
e principalmente a herança colhida, por essa, dos tribunais canônicos. Ainda que
se queiram lembrar, desse período medieval, apenas a incoerência das
inquisições, excomunhão, e fogueiras. Contudo, é necessário não ignorar que a
cláusula rebus sic stantibus, hoje, sob a roupagem de teoria da imprevisão, no
atual Código Civil, nos dá uma nova dinâmica de solução ao endividamento
público, em nossos inúmeros contratos bancários e de financiamento. Por isso,
não se pode omitir, desse período, o legado de Santo Agostinho, na patrística, e
de São Tomás de Aquino, na Escolástica.

A história cristã noticia, e vale realçar que o Santo São José constitui um dos
primeiros casos de paternidade sócio-afetiva, em relação ao símbolo maior do
cristianismo, Jesus Cristo. José, naquela ocasião, deu mostras que ser pai, não
significa apenas ser o genitor biológico, ou meramente, o reprodutor. Mas,
aquele que cria e educa. Aliás, é bom refletir que José e Maria, enquanto
genitores de Jesus de Nazaré, em suas missões transcendentais, estarão, sempre,
acima de qualquer crença ou convicção religiosa.

São José, o esposo de Maria, constitui exemplo de pai para toda humanidade. A
sua lição sempre foi o de honesto trabalhador e exemplar pai de família. Se,
pela história e crença cristã do Tocantins, ele é o guia cristão do rebanho de
Dianópolis e Palmas, nós devemos, no mínimo, reverenciá-lo, pela sua história de
vida, e em respeito aos laços históricos cristãos, que nos foram transmitidos.
Pois, que povo sem história, é povo morto, sem passado, e sem referencial no
tempo.

Num período de tantos fatos descartáveis, na ciranda da vida on line, observar
as tradições e o folclore exaltando, em exuberância, a crença da nossa gente,
através de carrego de mastro, pelas ruas. De realizações de preces, orações,
através novenas. De se parar, no tempo, para reverenciar e ostentar a sua crença
cristã. É, no mínimo, quedar-se, prazeroso, na satisfação de fazer parte deste
contexto. E reconhecer que há uma força superior que une, por exemplo, o povo de
Dianópolis, num misto de história e religião, que vai do São Lalau dos índios
acroás, nas missões, até a nova roupagem de São José, que nós lhe emprestamos na
Terrinha abençoada.

Por isso, rogamos ao glorioso São José, que abençoe os teus filhos, rebentos ou
não da Terra das Dianas. Crentes ou céticos. Adeptos de convicções diversas.
Sejam eles católicos ou evangélicos. Sejam eles protestantes, espíritas, ou
ateus. Pois que, com a grandeza do seu nome. Com a honradez da sua história. Com
a missão altruísta de criar e educar o maior dos homens, que esteve em nosso
meio. Permita, enfim, aos cidadãos, na diversidade de suas crenças, e na
vertente do laicismo, que o admirem, se possível for. Que creiam na sua história
de família e trabalho, se dignos forem. E aceitem as suas bênçãos e proteção, se
forem humildes, o suficiente, na excelsa condição de cristãos.

Zilmar Wolney Aires Filho (Zilô), advogado, professor especialista em Processo
Civil e estrando em Direito Civil

[i]

http://www.dnoto.com.br/O-Povo-Conta/o-santo-sao-jose-e-o-estado-laico-brasileir
o.html

[O autor está mais pra padre.]

OPINIAO: REVOLTA NO EGITO – LAICA E ISLAMICA

março 4, 2011 § Deixe um comentário

ALÉM-MAR, 01-03-2011

Revolta no Egipto: Não só política mas também espiritual e islâmica

Por: SAMIR KHALIL SAMIR, Asianews

Intelectuais e teólogos traçam as perspectivas para uma mudança também do Islão:
valor da mulher e mistura entre sexos, recusa do salafismo integralista, procura
de uma religiosidade do coração e da liberdade, contra o formalismo do véu, da
barba e das práticas rituais externas. E sobretudo dão as boas-vindas à
laicidade, à separação do Islão da política.

O documento sobre a renovação do Islão difundido pela revista egípcia O Sétimo
Dia («Imã e intelectuais egípcios: Renovar o Islão em direcção à modernidade»)
está a suscitar muito interesse na Internet. Num só dia ele foi espalhado por
pelo menos 12 400 sítios árabes. Cada um destes sítios teve numerosos
comentários por parte do público. O documento foi redigido pela revista com base
nas respostas recebidas de mais de 23 personagens entrevistadas. A importância
do documento permanece antes de mais porque os temas foram indicados pelos 23
peritos e depois porque a tentativa da revista é lançar um interessante projecto
de reforma do discurso islâmico.
Um outro aspecto interessante é que este projecto de reforma do Islão foi
publicado a 24 de Janeiro, um dia antes da explosão das manifestações no Egipto,
que levaram à queda de Mubarak. Tais manifestações têm motivos económicos e
políticos. Isso significa que além da corrente política, há uma corrente
intelectual que está farta do Islão difundido nos últimos 30 anos no país, um
Islão «exteriorizado», que põe a tónica nas coisas exteriores (o vestir, a
barba, o véu…). Isto mostra que no Egipto há um movimento global – ao mesmo
tempo que espiritual e político – que gostaria de transformar o país. E uma vez
que ele é um país líder em todo o Médio Oriente, pode pensar-se que as
transformações que se projectam no Cairo se difundam em toda a região. As
próprias manifestações, que entretanto aconteceram nas ruas da capital, poderão
ter influência também sobre este Islão «exteriorizado».

Mistura entre sexos

O documento analisa 22 questões relevantes para o Islão hoje. Há por exemplo a
questão 3 que fala da mistura entre sexos. O seu comentário diz que os ulemás
deveriam ter em conta as circunstâncias em que isso acontece e conciliá-lo com a
Charia. Se a mistura entre sexos se prende com questões de necessidade, então
não há problema. Citam um exemplo: na universidade há estudantes do sexo
masculino e feminino. Sendo esta uma necessidade do estudo, não há problema que
os estudantes do sexo masculino e feminino se misturem. O mesmo se diga no
tocante ao trabalho. Ao contrário, os intransigentes recusam qualquer mistura.
Na Arábia Saudita, os estudantes universitários do sexo masculino estão perante
o professor; as raparigas estão noutra sala, com uma televisão por cabo.
As declarações reformistas sublinham que, contudo, o Islão não proíbe a relação
entre homem e mulher. Tal relação no Egipto estava a tornar-se um problema
porque o estilo «puritano» se difundiu cada vez mais. Provocou muita celeuma, há
tempos, a fatwa de um doutor de direito corânico (faqih). Uma mulher, num
programa de televisão, explicava que por exigências de trabalho tinha de estar
no mesmo escritório com um homem. Mas isso era proibido pela Charia; a mulher
não podia despedir-se e pediu ajuda. O ulemá ofereceu a solução: a mulher teria
de «ter amamentado» o seu colega. Perante o escândalo suscitado entre o público
ali presente, o ulemá explicou que desse modo o colega se teria tornado «como
que um filho» para a rapariga e assim poderiam estar juntos no escritório, sem
possíveis relações sexuais (dado o novo «parentesco»). Face ao espanto das
pessoas, o ulemá defendeu-se dizendo que «é preciso julgar não com o coração,
mas com o direito». Esta fatwa suscitou muitíssimas reacções no mundo islâmico,
a ponto de o ulemá ter corrido o risco de perder o trabalho.

A jihad

O sexto ponto trata da jihad, a guerra santa. Segundo os reformadores, a jihad
no Islão é dirigida contra os ocupantes nos países muçulmanos: «Matai no caminho
de Deus aqueles que combatem contra vós, mas não tomeis a iniciativa da
agressão» (Alcorão 2, 190). Nos comentários a este versículo, precisa-se que é
proibido matar gente desarmada, crianças, velhos, mulheres, sacerdotes,
religiosos, e destruir casas de oração. E acrescentam: tal visão – tão moderna –
está presente no Islão desde há 1400 anos.
Na análise destes reformistas, a jihad só pode ser defensiva e só em terra
muçulmana. O problema põe-se quando os muçulmanos fazem jihad nos tempos e
lugares errados (entende-se obviamente que é errado agredir a gente na Europa,
por exemplo, que não é «terra islâmica»).
Quando fazê-la, quem pode fazê-la, onde se pode fazer: a resposta a estas
perguntas torna a jihad correcta do ponto de vista islâmico. Deste modo, os
reformistas condenam todo o terrorismo islâmico, os ataques à igreja de
Alexandria e de Bagdad. Deve ser dito que esta interpretação da jihad é
clássica, mas infelizmente há interpretações muito contrárias, que justificam o
terrorismo.

A religião exterior

O ponto 7 explica a necessidade de «bloquear as agressões sobre a religiosidade
exterior e os usos estrangeiros que nos chegam dos Estados vizinhos». Quem
combate este Islão exteriorizado, diz que este é um fenómeno novo, com apenas 30
anos. Isso deve-se ao facto de muitos egípcios terem ido trabalhar para a
península Arábica e terem regressado com usos não locais. A revista explica que
também o Egipto tem os seus costumes e modos de vestir para alguns cargos no
Islão. Mas – diz-se – «nos últimos tempos começámos a imitar no vestir as nações
vizinhas [na prática, a Arábia Saudita – ndr] com barba até ao peito, a túnica
longa (jilaba), o véu… Depois chegou-se à obrigação para as mulheres de usar o
niqab, o véu integral como expressão de modéstia». E citam o Alcorão 24, 30:
«Diz aos crentes para baixar o seu olhar e ser castos.»
O documento afirma que «o importante é a modéstia do olhar». Recorde-se que no
último ano houve milhares de agressões contra mulheres que não vestiam à maneira
islâmica. «O exterior – explicam os peritos reformadores – tornou-se hoje a
religião. O modelo do crente tornou-se no Egipto a aparência da religiosidade,
sem ir à procura da pureza do coração e da castidade do olhar, que o niqab não
pode esconder.»
Estes sublinhados são fundamentais e muito próximos do Evangelho. É um novo
alento místico que adverte: não conseguireis salvar a pureza da relação entre
homens e mulheres somente com o uso de vestes.
E acrescentam: esta gente – que trouxe modos de vestir do estrangeiro – dividiu
as famílias, põem uns contra os outros, porque os homens querem impor o véu e as
raparigas recusam-no. «Tornámo-nos», conclui o documento, «uma nação que se
preocupa com o exterior e tem o vazio no interior.»

Religião e Estado

O ponto 8 penso que seja o mais importante e trata da separação entre religião e
Estado. O documento usa a palavra «almaniyyah», laicidade. No Sínodo sobre o
Médio Oriente, tivemos receio de usar esta palavra porque ela é comummente
entendida como «ateísmo», indicando assim somente uma laicidade inimiga da
religião e por isso de rejeitar. Ao contrário, o documento usa precisamente esta
palavra. E explica que ela é baseada na ideia da separação entre religião e
Estado. A laicidade – dizem eles – não deve ser considerada como o oposto da
religião, mas é preciso ver nela uma salvaguarda contra o uso político ou
comercial da religião. «Neste contexto», afirma-se, «a laicidade está em
sintonia com o Islão e por isso a laicidade é juridicamente aceitável. O mesmo
se diga sobre o controlo das actividades [islâmicas] do Estado.»
A laicidade ateia, pelo contrário, vê a religião como uma amarra e por isso
pretende a liberdade absoluta. Esta laicidade é oposta ao Islão, que põe certos
limites. Quem quer escolher a fé deve fazê-lo por convicção e portanto aceitar
as normas da religião, e não pode brincar com elas. Diz-se, portanto, que há uma
laicidade extremista e uma boa. Na Internet, este ponto sobre a laicidade atrai
muitas críticas. Por exemplo, o sítio «Os guardiães do dogma» publica uma
crítica. «Todos devem saber que a laicidade significa não religiosidade, e que a
não religiosidade é a via rápida que conduz ao ateísmo. O Islão deve combatê-la
porque na laicidade há uma semente de todos os males, etc.»
Este ponto, embora muito debatido, mostra que no Egipto está a nascer o conceito
de sociedade civil, não imediatamente coincidente com a comunidade islâmica.

Atitude perante o salafismo

Também o ponto 9 é interessante. Ele pede para «purificar o património dos
“primeiros séculos do Islão” (salafismo), eliminando os mitos (khurâfât) e as
agressões contra a religião». O documento afirma que «liberdade, igualdade,
conhecimento, justiça e ciência são os valores mais importantes que o Alcorão
trouxe até nós quando foi revelado há 14 séculos. Eles são valores claros sobre
os quais não há contraste. Não é permitido minimizar estes valores. Nós temos
uma grande necessidade destes grandes valores, mais ainda do que no passado». E
acrescenta: «Os países não se desenvolvem senão com base nestes valores e não
terão qualquer renascimento (nahda) senão com a abolição do património salafita,
que deve ser considerado um freio sobre a comunidade islâmica, com aquilo que
ele comporta de mitos ou invenções de conserto, ou agressões da religião.»
Estas afirmações encaram frontalmente as práticas do integralismo sufocante (o
vestir, o puro e o impuro, as leis, etc.). Para um salafita, por exemplo, é
proibido sentar-se numa cadeira porque o profeta sentava-se no chão; não se
devem usar palitos comuns, mas devem palitar-se os dentes com um pauzinho tirado
de uma planta da Arábia Saudita (miswak)! Com estas críticas, o documento tende
a reformar o Islão, impelindo-o para um salto religioso mais espiritual.

Reflexão final

A julgar pelos comentários encontrados na Internet, vê-se que a maioria,
contrária ao documento, é presa do Islão exterior, tradicional, formal,
farisaico. Mas há muitos intelectuais e religiosos que pensam de modo moderno;
estes, porém, não têm o apoio das instituições.
Diante das revoltas sociais e dos impulsos à mudança que estão a acontecer em
vários países do Médio Oriente e da África do Norte, é preciso dizer que o
salafismo de algum modo é uma espécie de «ópio do povo»; ele focaliza a atenção
das pessoas sobre práticas religiosas exteriores e secundárias, sem se preocupar
com a sociedade, o desenvolvimento, o bem-estar. Por sua vez, os poderes
políticos deixam fazer, contanto que eles não se metam na política.
No Egipto, o poder político não é uma ditadura pura, mas para poder continuar
fez concessões cada vez maiores ao salafismo. O poder político mostra-se
«islâmico» de forma a não cair na crítica do salafismo, ou da Irmandade
Muçulmana. Mas cada concessão reforçou este Islão exterior e conduziu a novas
concessões.

Exigência de Liberdade

Os bispos dos países do Magrebe, no Norte de África, reconhecem que os
acontecimentos que se estão a desenrolar na Tunísia, no Egipto e na Líbia
manifestam uma «exigência de liberdade e dignidade por parte das populações,
especialmente por parte das gerações jovens, que se traduz na vontade de serem
reconhecidos como cidadãos livres e responsáveis».
A afirmação foi feita pelos bispos da Conferência Episcopal do Norte de África
(CERNA, que agrupa os bispos da Tunísia, da Argélia, de Marrocos, da Líbia e do
Sara Ocidental), que se reuniram na Argélia de 29 de Janeiro a 2 de Fevereiro.
Alinhando com a mensagem do papa Bento XVI para o Dia Mundial da Paz de 2011, os
bispos defendem a liberdade religiosa como caminho para a paz e dizem que «a
liberdade religiosa é a garantia do respeito completo e recíproco entre as
pessoas e que se deve traduzir, antes de mais, na liberdade de consciência
reconhecida a todos».
Além de defenderem a situação dos emigrantes clandestinos que dos países do
Norte de África procuram chegar à Europa, os bispos reafirmaram que a Igreja no
Norte de África está, sem distinções, ao serviço de cristãos e muçulmanos, das
suas aspirações de maior dignidade e melhores condições de vida.
Na conclusão dos seus trabalhos, os bispos sublinharam ainda «as relações de
amizade tecidas com os muçulmanos» e defenderam «a prossecução do diálogo
inter-religioso» e da «colaboração com a sociedade civil». As manifestações
populares da Tunísia e do Egipto juntaram nas ruas tanto muçulmanos como
cristãos, que com uma mesma voz se levantaram contra a pobreza, a corrupção e o
aumento do custo de vida. [i]

http://www.alem-mar.org/cgi-bin/buildprint.pl?EkAAEVEVFEJahUyzNN

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